Ainda que nunca tenha figurado no
calendário romano geral ou universal, por muitos séculos, existiu uma festa
particular no calendário da Igreja que celebrava o casamento de José e Maria.
Eram os “Esponsais da Bem-Aventurada Virgem Maria e São José”, no dia 23 de
janeiro.
A festa caiu em desuso com o
passar dos anos e acabou por ser eliminada, em 1961, com a formulação do novo
calendário litúrgico. No entanto, os Oblatos de São José fizeram um pedido para
continuar celebrando a festa. E «em 1989, a festa dos Santos Esposos, Maria e
José, foi reintroduzida no calendário próprio dos Oblatos de São José, com textos
próprios para a Missa e para a Liturgia das Horas», diz o portal da Congregação
dos Oblatos de São José.
O que diz a Bíblia
O primeiro título que os evangelistas Mateus e Lucas dão a José é “Esposo de Maria” (Mt 1, 16; Lc 1, 27a) e o segundo é “Filho de David” (Mt, 1, 20; Lc 1, 27b). Entre os dois, Mateus insere o qualificativo “Justo” (Mt 1, 19) exprimindo desta forma o grau de santidade exigido no objetivo pelo qual estes dois títulos lhe são atribuídos: a entrada do Verbo na família humana. E os dois primeiros capítulos dos dois evangelistas mostram como essa santidade é vivida.
A relevância dos Esponsais de Maria
e José
A festa faz referência a uma “compreensão exata do estado civil de São José e da Bem-aventurada Virgem Maria”, crucial “para que, de nossa parte, haja um conhecimento e um amor mais completos do mistério da fé”. Sem isso, não podemos entender o mistério da Encarnação, ou o plano eterno de Deus para a nossa salvação, que dependia do “sim” de uma jovem e da cooperação do seu fidelíssimo esposo.
Em segundo lugar, nós vemos no
casamento de Maria e José a beleza do casamento de Deus, o Esposo por
excelência, com a Criação e o Seu Povo, restaurado na sua perfeição original
por Jesus, que toma a Igreja/Humanidade redimida como Esposa.
Em terceiro lugar, como explica
Fulton J. Sheen em O Primeiro Amor do Mundo, a união matrimonial é um
símbolo e antegozo da união com Deus. «Se há exaustão e esgotamento no matrimónio»,
observa ele, «é porque ele fica aquém do que deveria revelar, ou porque não se
viu, no ato, o mistério divino que está dentro».
A festa dos Esponsais na História
da Igreja
Não obstante suas muitas riquezas, uma festa litúrgica em honra à união matrimonial entre a mãe e o pai adotivo de Nosso Senhor levou um longo tempo para desenvolver-se, e em certos aspetos seu desenvolvimento ainda está incompleto.
Foi só no início do século XIV
que o Padre Jean Gerson, um pioneiro da piedade josefina, compôs um Ofício dos
Esponsais de José. Apesar da exclusividade do nome, o objetivo de Gerson era
promover uma festa votiva especial em honra tanto de José quanto de Maria, na
Quinta-feira das Têmporas do Advento. Permanece incerto, porém, se ou quando a
festa foi celebrada.
Definitivamente, a primeira festa
em honra dos Esponsais foi celebrada em 22 de outubro de 1517, pelas religiosas
francesas da Ordem da Anunciação (fundada por Santa Joana de Valois). Todavia,
a festa honrava unicamente a Santíssima Virgem e, portanto, não correspondia ao
ideal de Gerson. O mesmo pode ser dito de uma festa dos Esponsais de Maria que
os franciscanos celebravam a 7 de março, depois de terem recebido em 1537 a
permissão para fazê-lo, e que os servitas começaram a celebrar mais ou menos na
mesma época, [só que] a 8 de março.
Em 1556, a diocese de Arras, na
França, estabeleceu no dia 23 de janeiro os Esponsais de Maria e, graças ao
compositor litúrgico dominicano Pierre Doré, a sua celebração seguia a ideia de
Gerson de honrar tanto a esposa quanto o esposo. A ideia e a data deram certo,
embora também fossem utilizadas outras datas, como 18 de julho, na Morávia
(atual República Tcheca).
As revisões posteriores ao
Concílio de Trento, no entanto, tornaram-na de novo uma festa só de Maria. A
partir do século XVIII, só por um privilégio especial São José podia ser
comemorado na Missa, nas Vésperas e nas Laudes. Felizmente, com a reforma de São
Pio X, uma comemoração de São José (tomada da sua festa em 19 de março)
tornou-se parte obrigatória da Missa, e o seu título oficial finalmente
reincorporou o santo Patriarca: Desponsatio Beatæ Mariæ Virginis cum Sancto
Joseph.
Inicialmente, a Santa Sé relutou
em aprovar a difusão da festa (mariana) dos Esponsais, negando-a para a Espanha
em 1655, por exemplo. No entanto, gradualmente Roma flexibilizou-se, concedendo
a festa à Áustria (1678), à Espanha e ao Império Germânico (1680), à Terra
Santa (1689), aos cistercienses (1702), à Toscana (1720), aos Estados Papais
(1725), aos Estados Unidos (1840), e assim por diante. Em suma, a Igreja passou
a conceder a festa a qualquer diocese ou comunidade religiosa que o
solicitasse. O dia 23 de janeiro era a data mais comum, mas a França e o Canadá
observavam a festa em 22 de janeiro, e os países hispanófonos, a 26 de
novembro, para evitar conflito com as festas de Santo Ildefonso e de São
Raimundo de Peñafort. Ainda que nunca tenha figurado no calendário geral ou
universal do rito romano, a festa era bastante comum antes do Concílio Vaticano
II.
A política relativamente aberta
da Santa Sé continuou até 1961, quando, como um prenúncio do que estava por
vir, a Sagrada Congregação dos Ritos removeu a festa dos calendários
particulares, a menos que as comunidades locais demonstrassem alguma ligação especial
para com ela.
Esta lei continua em vigor. Por
exemplo: em 1989, os Oblatos de São José obtiveram permissão para celebrar, em
23 de janeiro, “Os Santos Esposos Maria e José”, mas só por causa de sua
espiritualidade josefina já consolidada. Como resultado dessa política, a vasta
maioria dos católicos hoje nunca ouviu falar da festa dos Esponsais.
Como fim, os Esponsais aparecem,
muito oportunamente, perto do fechamento do ciclo do Natal — com a festa da
Purificação, em 2 de fevereiro. Tendo vivido liturgicamente a espera pelo
Messias (Advento), o seu nascimento (Natal), a fuga para o Egito e o massacre
dos inocentes (28 de dezembro), a circuncisão do Senhor (Oitava de Natal), a
visita dos Magos (Epifania), a vida escondida de Jesus, Maria e José em Nazaré
(Festa da Sagrada Família), convém que lancemos um último olhar à jovem mãe de
Cristo e a seu pai adotivo, só que agora enquanto esposa e esposo. Quando
vistos como uma parte do ciclo do Natal, os Esponsais funcionam como uma sequência
de memórias perto das cenas finais de um belo filme.
Vida conjugal como um caminho para a santidade
Em 2015, Luís e Zélia Martin, os pais de Santa Teresa de Lisieux e quatro outras religiosas, tornaram-se os primeiros esposos na história da Igreja a ser canonizados enquanto casal. Antes disso, em 2008, o Papa Bento XVI havia estabelecido 12 de julho como a data de sua festa conjunta no calendário litúrgico. Era o aniversário de casamento deles.
A celebração universal ou particular
da festa dos Esponsais de Maria e José traria muitas bênçãos e ensinamentos
para um mundo cada vez mais confuso sobre a natureza e a vivência do matrimónio.
E, como um pequeno bônus, o aniversário de casamento de São Luís e Santa Zélia
Martin deixaria de ser um evento isolado no calendário da Igreja.
O primeiro título que os evangelistas Mateus e Lucas dão a José é “Esposo de Maria” (Mt 1, 16; Lc 1, 27a) e o segundo é “Filho de David” (Mt, 1, 20; Lc 1, 27b). Entre os dois, Mateus insere o qualificativo “Justo” (Mt 1, 19) exprimindo desta forma o grau de santidade exigido no objetivo pelo qual estes dois títulos lhe são atribuídos: a entrada do Verbo na família humana. E os dois primeiros capítulos dos dois evangelistas mostram como essa santidade é vivida.
A festa faz referência a uma “compreensão exata do estado civil de São José e da Bem-aventurada Virgem Maria”, crucial “para que, de nossa parte, haja um conhecimento e um amor mais completos do mistério da fé”. Sem isso, não podemos entender o mistério da Encarnação, ou o plano eterno de Deus para a nossa salvação, que dependia do “sim” de uma jovem e da cooperação do seu fidelíssimo esposo.
Não obstante suas muitas riquezas, uma festa litúrgica em honra à união matrimonial entre a mãe e o pai adotivo de Nosso Senhor levou um longo tempo para desenvolver-se, e em certos aspetos seu desenvolvimento ainda está incompleto.
Em 2015, Luís e Zélia Martin, os pais de Santa Teresa de Lisieux e quatro outras religiosas, tornaram-se os primeiros esposos na história da Igreja a ser canonizados enquanto casal. Antes disso, em 2008, o Papa Bento XVI havia estabelecido 12 de julho como a data de sua festa conjunta no calendário litúrgico. Era o aniversário de casamento deles.
Baseado em Padre Paulo Ricardo e Aleteia
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