Decorreram
muitos anos desde o dia em que me contaram a história de uma "guerrinha” de
crianças. Infantilidades. Discutiam entre si qual era a família mais
importante. Eu sou filha do senhor... E eu sou filho do senhor... Eu sou filho
do senhor... Nitidamente,
uma baseava-se no reconhecimento social da sua família, outro no prestígio dos
diplomas familiares, outro no poder económico familiar... Cada criança tinha o
seu argumento. E puxavam excitadamente pelos galões familiares. A sua família
era sempre a mais importante.
Uma
criança, que, até ao momento, não interviera na conversa, saiu-se com esta
tirada: - E eu sou filho de Deus!
Não
posso garantir absolutamente que a conversa fora exatamente assim. Como a
recordo assim é que a relato. Fico com a expressão que despertou o registo da
memória e lhe dá sentido e importância: “Eu sou filho de Deus!”.
Imagino que muitos dos meus leitores hão de teimar em interpretar a resposta que fechou a “guerra infantil” com chave de ouro é apenas fruto da prodigiosa imaginação infantil. Uma ingenuidade. Uma criancice. Que complacência irá nos seus rostos? Que benevolência!
No entanto, como diz a Sagrada Escritura: “Da boca das crianças e meninos de peito sai um louvor que confunde...” (Sl 8, 3).
“Eu sou filho de Deus” é a aplicação direta do ensinamento do apóstolo João: “Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos!... Caríssimos, agora já somos filhos de Deus” (1Jo 1-2). E o mesmo nos faz conhecer o apóstolo Paulo: “... recebestes um Espírito que faz de vós filhos adotivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai! Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus...” (Rom 8, 15-17). Quanta veemência, quanto ardor, quanto entusiasmo nestas palavras! Pelo Batismo, somos VERDADEIRAMENTE FILHOS DE DEUS.
Recordo a cena infantil que deu início a este texto e as palavras dos apóstolos no dia em a Igreja celebra a FESTA DO BATISMO DO SENHOR. Neste dia sagrado do Batismo de Jesus, é urgente salientarmos a importância de dizermos com toda a convicção: Eu sou filho(a) de Deus.
Gostava que hoje, à saída das nossas igrejas, os olhos dos cristãos brilhassem com um brilho espiritual, com um brilho divino. Desejava que os seus corações sentissem o calor divino do Amor de Deus Pai, de se sentirem REALMENTE FILHOS DE DEUS.
Desejava
que os Ministros do Altar gritassem com o fogo da palavra a extraordinária
VERDADE aos corações esmorecidos: SOMOS FILHOS E FILHAS DE DEUS! TEMOS COMO
HERANÇA O PRÓPRIO DEUS!
Hoje, queria ver a emoção em cada rosto pela realidade celebrada. Filhos de Deus que se reúnem. Que celebram juntos a sua fé. Que se sentem irmãos. Que sentem a importância de serem filhos de Deus. Não é necessária a algazarra de bombos e foguetes, de música ruidosa, de gritos histéricos. Basta-nos aquela alegria anunciada por Jesus: “Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11).
Não sei se a emoção de sermos filhos de Deus tocou o coração de alguém. Não sei se cultivamos a profunda consciência da realidade que NOS assiste. Somos filhos de Deus porque em nossos corações está o Espírito que clama “Abbá, ó pai!” (Meu Deus, Paizinho!). Só sei que essa VERDADE deveria fazer transbordar os nossos corações da mais completa felicidade, da mais perfeita alegria.
Meu irmão, minha irmã (pelo BATISMO), desejo-te um dia abençoado com a alegria e a consciência do teu batismo. Com a consciência de seres filho(a) de Deus. E que essa NOBREZA DIVINA te una cada vez mais à FAMÍLIA SAGRADA que Deus sonhou e criou para ti. Para mim. Que a felicidade divina da Família de Deus se espalhe em ondas e fulgores de amor ao teu redor.
Miguel Costa
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