Na Bíblia, Deus é «o Noivo apaixonado»

Muitas vezes falamos de Deus como "O Senhor", "O Juiz". E, no entanto, a Bíblia está cheia dessa outra imagem: o Noivo, o Noivo apaixonado. E esta será a essência da última revelação de Jesus, e o eixo fundamental do Evangelho de João: Deus é Amor. Por que estamos mais interessados em imagens de poder ou julgamento do que imagens de abundância, felicidade e amor?
 
Não há nada nas relações humanas tão grande quanto um casamento, a celebração do amor, aquela qualidade especificamente humana que significa ser uma pessoa louca por outra. Um casamento é a festa que celebra essa loucura. É o triunfo do amor na vida quotidiana. E a Bíblia escolheu essa loucura para falar de Deus, do que Deus é connosco.
 
O casamento e a abundância. Seiscentos litros de vinho. O tema relaciona-se com a multiplicação dos pães, com a farinha e o azeite que nunca terminaram nos milagres de Elias e Eliseu, com o Banquete que a Sabedoria preparou para os homens ... E uma catequese da Eucaristia começa a avançar, na qual não é o maná ou a lei que nos alimenta, mas a Palavra e o Amor de Deus tornados presentes em Jesus Cristo.
 
É claro para o apóstolo e evangelista João que a contemplação do evento de uma forma meramente histórica não é suficiente. João está a apresentar quem é Jesus. Às vezes reduzimos o significado dos "sinais" a uma manifestação quase mágica, como se os milagres de Jesus fossem maravilhas que demonstram o seu poder; como uma demonstração de força para deixar claro que Ele é mais do que humano. Não é assim: os sinais são revelação de Deus: este sinal mostra, mediante Jesus, que Deus é abundância, novidade, realização muito acima do que a razão pode saber sobre Ele.
 
O Reino de Deus é um banquete, é uma festa
O anúncio do Reino é Evangelho, ou seja, Boa Notícia.
 
É imperativo que vivamos assim a nossa fé em Jesus: como uma festa. O centro da mensagem de Jesus é uma notícia incrível: Deus ama-nos. Deus ama-me; tudo o mais deve ser entendido dentro desse quadro. É o fundo da fé: aceitar no mais íntimo que Deus me ama. Esta é a fé que o autor da profecia de Isaías chegou, permitindo-se a audácia de apresentar Deus como um namorado apaixonado. É a fé que nos fez ler o Cântico dos Cânticos como um poema de amor entre Deus e o homem. Esta é a fé que nos faz ver no casamento um sinal da presença de Deus. Esta é a primeira Boa Nova, aquela que muda tudo.
 
A primeira coisa que muda quando entendemos que Deus nos ama é o sentido do pecado: Deus me ama como eu sou, como o filho doente é amado. Porque o amor não surge da apreciação, mas é o contrário. Primeiro ama-se e, depois, tudo é aceitável, desculpável... Isso às vezes é mais bem entendido na amizade: «Somos amigos e o meu amigo pode ser qualquer coisa, mas eu o amo e ele pode contar comigo sempre. Eu não o quero porque ele é bom: Eu o amo.»
 
Os meus pecados não impedem o amor de Deus. Conto com Ele para que os meus pecados não me dominem. Ele é Quem tira o pecado, é o Salvador, é o Libertador. Ele tira o pecado, porque é a força para me libertar do mal que me oprime, envergonha, separa dos outros, entristece, porque Ele é o Amigo que não é ofendido pelas minhas imperfeições.
 
A segunda coisa que é mudada é o sentido dos outros. O amor é contagioso. Descobrimos com alegria que podemos viver amando e servindo, e percebemos que desta forma o mundo é melhor, mais fácil, mais como deve ser.
A Boa Notícia de Jesus deve ser anunciada, deve ser compartilhada. Devemos fazer deste mundo uma família de filhos de Deus que lutam contra o que entristece, com total empenho na luta contra tudo o que faz os filhos sofrerem. E vamos fazê-lo com os carismas que Deus nos dá, isto é, com os instrumentos que Deus dá a cada um de nós para tornar vivencial e credível o Seu Amor.
 
José Enrique Galarreta, em Fé adulta


Como podemos pretender seguir Jesus sem cuidar mais entre nós da alegria e do amor? O que pode haver de mais importante do que isto na Igreja e no mundo? Até quando poderemos conservar em «jarros de pedra» uma fé triste e aborrecida? Para que servem todos os nossos esforços, se não somos capazes de introduzir amor na nossa religião? Nada pode ser mais triste do que dizer de uma comunidade cristã: «Já não têm vinho!»
José Antonio Pagola, em Grupos de Jesus

Há apenas um antídoto para a nossa falta de entusiamo:
manter conscientemente contacto e conexão com Sua Fonte:
Deus, a Palavra revelada por Deus (Bíblia),
a Palavra de Deus inscrita na Criação e na sabedoria dos Povos, 
a Família de Deus (a Igreja, a Igreja Doméstica, cada pessoa, cada ser).

Comentários