O meu Deus é poeta - texto longo, mas magnífico do jornalista e escritor espanhol Juan Arias, no livro «O Deus em quem não creio» - definição que está no fim do texto

O meu Deus é poeta.
Porque o poeta é quem melhor sabe exprimir em palavras os sentimentos mais profundos e ocultos do mundo.
E o meu Deus fez-Se palavra.
Uma palavra tão clara, tão sugestiva, tão nova, como a poesia.
Uma palavra que o mundo sempre esperou.
Uma palavra que diz tudo.
Uma palavra que é inédita.
Uma palavra que assombra.

O meu Deus é uma poesia nova porque cria o que canta.
Os outros poetas cantam o que imaginam, o que amam, o que talvez nunca existirá.
A poesia do meu Deus é um milagre!

«Menina, levanta-te!»: É um verso de amanhecer, mas um verso criador porque a menina morta tornou à vida.

"Isto é o meu corpo": É um verso do entardecer, mas, a partir de então, Deus é do mundo e pode ser comido.

«Os teus pecados são-te perdoados»: É um verso fora do tempo e, desde então, o infinito e o eterno correm alegremente pelo nosso sangue, alimentando a nossa esperança.

O meu Deus é poeta porque sabe dizer as coisas mais difíceis e surpreendentes com a simplicidade natural da criança.

O meu Deus é poeta porque sabe encher de luz o mais sombrio; porque sabe dar calor ao mais frio; porque sabe desenhar esperança até no muro sujo da vergonha.

O meu Deus é poeta porque faz vibrar aquilo que toca; porque sabe fazer o milagre de que n'Ele tudo mereça um verso, até a miséria.
O meu Deus-poeta recolheu nos Seus olhos, na Sua passagem pela terra, toda a poesia escondida nas coisas e nos homens.

Por isso, o Seu olhar está cheio de poesia.

Por isso, não existe um verso que Ele já não tenha escrito, recitado, sentido.

Para o meu Deus, tudo era poesia: a galinha, a moeda (Lucas 15,8: a dracma), as espigas, um poço de água, uma criança suja, uma mulher que ama, um homem que teme e duvida, uma esposa que se abre para a vida, os peixes que põe nas brasas na margem do lago, a austeridade ascética do Baptista e a natural liberdade de espírito dos Seus discípulos que não jejuavam.

E o meu Deus continua a ser poesia eterna, porque continua a ser palavra sonora ou silenciosa.

Continua a ser, no coração dos homens, o grande trovador da História.

O meu Deus continua a ser poeta porque n'Ele não há mais do que beleza, sensibilidade, ternura, inteligência, profecia, paixão por tudo que existe.

Todo o verdadeiro poeta e, de alguma forma, um revolucionário que esgaravata com arte no fundo das coisas fazendo que as águas se agitem e gritem a sua sujidade escondida.

Por isso, o meu Deus é o verdadeiro revolucionário da História.
Por isso, a Sua poesia é sempre actual e viva.

Por isso, os Seus versos, a Sua palavra são sempre uma sacudidela, um empurrão, um alarme.

É difícil o meu Deus-poeta, o meu Deus sensível, o meu Deus revolucionário para quem pensa Deus como a matemática; para quem não imaginar Deus enamorado das coisas tangíveis; para quem preferir um Deus mudo, impenetrável, impassível.

Mas o meu Deus será sempre poeta.

Poeta do infinito e poeta da terra; da minha terra; da minha pobre terra; da minha doce terra.

O meu Deus é sensível a toda a vibração de poesia viva, de carne e sangue, humana.

O meu Deus é a poesia feita pessoa.

O meu Deus é a inspiração de cada ser criado, que deixa que a sua frágil flauta se encha a cada instante dessa palavra misteriosa que o mantém na existência e lhe recorda que a vida não é um absurdo.
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Texto de Juan Arias (20/07/1932 | 22/11/2024, jornalista e escritor espanhol); retirado das últimas páginas do seu livro intitulado «O Deus em quem não creio»:

«O Deus em que não creio
Juan Arias

Eu nunca acreditarei em:
Um Deus que “surpreenda” o homem num pecado por fraqueza.
Um Deus que condene a matéria.
Um Deus que ame a dor.
Um Deus que acenda luz vermelha contra as alegrias humanas.
Um Deus mágico e feiticeiro.
Um Deus que se faça temer ou que não se deixe tratar por tu.
Um Deus que se torne monopólio de uma igreja, de uma raça, de uma cultura ou de uma casta.
Um Deus que se diverte, condenando.
Um Deus que “manda” para o inferno.
Um Deus incapaz de perdoar o que os homens condenam.
Um Deus incapaz de compreender que as crianças têm o direito de brincar e são esquecidas.
Um Deus que exija do homem que, para crer, renuncie a ser homem.
Um Deus a quem não temam os ricos a cuja porta jazem a fome e a miséria.
Um Deus ao qual adoram os que vão à Missa, mas continuam a roubar e a caluniar.
Um Deus que não saiba descobrir algo da sua bondade, da sua essência, lá onde vibra um amor, por mais equivocado que seja.
Um Deus que condene a sexualidade.
Um Deus para quem fosse o mesmo pecado comprazer-se com a vista de umas pernas bonitas e caluniar, roubar o próximo ou abusar do poder para prosperar.
Um Deus morfina para a reforma da Terra e somente esperança para a vida futura.
Um Deus dos que creem que amam Deus porque não amam ninguém.
Um Deus que aprove a guerra.
Um Deus daqueles que desejam que o padre abençoe com água-benta os sepulcros caiados dos seus negócios desonestos.
Um Deus que negue ao homem a liberdade de pecar.
Um Deus a quem falte perdão para algum pecado.
Um Deus que aceitasse e concordasse com tudo o que os padres dizem dele.
Um Deus que ponha a lei acima da consciência.
Um Deus que prefira a pureza ao amor.
Um Deus que não possa ser percebido nos olhos de uma criança ou de uma mulher bonita ou de uma mãe que chora.
Um Deus que se case com a política.
Um Deus que aniquilasse para sempre nossa carne em lugar de ressuscitá-la.
Um Deus que aceitasse por amigo quem passasse pela Terra sem ter feito ninguém feliz.
Um Deus que, ao abraçar o ser humano aqui na Terra, não soubesse lhe comunicar o gosto e a felicidade de todos os amores humanos juntos.
Um Deus que não se tivesse feito verdadeiramente homem com todas as suas consequências.
Um Deus no qual eu não possa esperar contra toda esperança. (...)
Sim, o meu Deus é... o outro Deus.

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