Envelhecemos na
solidão. Há medida que passam os anos e aumentam as maleitas, aperta-se o cerco
das amizades. São os amigos que morrem, são as doenças que nos enclausuram nos
cubículos a que chamamos casa, é o mundo lá fora que mudou sem nos pedir licença
e a um ritmo que as nossas pernas já não sabem acompanhar.
O que mais custa é a
solidão. Ela diz-nos da fragilidade de forma escandalosa. A solidão é uma
antevisão da morte.
Assumir a sua própria
biografia é também viver a fragilidade sem que ela se torne obsessão ou seja
votada ao esquecimento. Talvez nos falte vestir a pele da nossa condição. Mas,
como haveremos de reaprender a morrer?
Já não sabemos morrer. Empurramos a morte para fora da vida, como quem expulsa de casa o convidado inconveniente.
Desde o momento em que tomamos consciência da nossa fragilidade, tapamos as rugas com betume, pintamos à trincha a cinza dos cabelos e medicamos as faltas de memória que ameaçam denunciar a nossa fragilidade e o aproximar da morte.
O ofício de morrer dá-se hoje longe de casa, numa sala impecavelmente branca de um qualquer hospital, longe da vista, longe do coração.
E o funeral será incumbência dos da terceira idade, que o ritual do enterro pode traumatizar alguma criança ou quem sabe mesmo um jovem menos preparado para as lides da fragilidade.
Escuto o teólogo
dizer que se «somos uma sociedade que raramente reconhece a morte antes de ela
acontecer, o cristianismo é uma formação contínua em morrer cedo». Tornar-se
pessoa é também esta aprendizagem da fragilidade, mas de uma fragilidade que
fecunda a vida.
É a lição do
Ressuscitado. O Evangelho é como que um treino de humanidade que ensina a
fragilidade que me dá uma pele rugosa, cabelos brancos, nomes de amigos para
esquecer e, em tudo isso, a sensibilidade do acolhimento e do cuidado do outro.
Tomé aprende-o de Jesus, colocando o dedo na ferida não disfarçada do
Ressuscitado. O que conquista Tomé não é que Jesus apareça entre os doze quando
devia estar morto, porque eles o tinham visto morrer na cruz. Não é o betume da
pele ou a tinta do cabelo, não é o sucesso luminoso do derrubar da pedra do
sepulcro que o ganham. O que o seduz definitivamente é a pele ferida, o abraço
dado aos apesares da vida, o toque atento e cuidadoso na fragilidade que deixa
marca e marca de morte.
Depois de verem e
acreditarem, os discípulos voltam a casa. Parece um absurdo. Como podem eles
regressar às suas vidas depois de terem sido testemunhas do Ressuscitado? Como
podem voltar a pensar em peixes e redes e barcos quando a história foi atingida
por um terramoto de vida?
Podem, porque
aprenderam a lição da fragilidade. Aprenderam, no túmulo vazio e na ferida no
peito, que a vida toda, mesmo a vida que dói, mesmo a vida frágil da labuta
cansativa e monótona, é túmulo vazio, isto é presença do Filho de Deus. As
testemunhas da Ressurreição vão para as suas casas, tão frágeis, tão próximas
da morte, porque lá também é lugar de ressurreição. De que outra coisa poderia
ser lugar?
Pedro Valinho Gomes,
investigador nas áreas da Teologia e da Filosofia,
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