Para onde foi a profecia da Igreja de Jesus? Porque está tão neutralizada? - reflexão do teólogo José António Pagola

Escreve 
José Antonio Pagola, no seu livro "Recuperar o Projeto de Jesus": «O movimento de Jesus nasceu como um movimento de profetas. A irrupção do espírito de Jesus ressuscitado viveu entre os seus discípulos como uma experiência nova e assombrosa. [] O espírito de Jesus faz de todos os seus seguidores autênticos profetas: homens ou mulheres, libertos ou escravos, todos podem viver com espírito profético. O movimento de Jesus nasce para introduzir no mundo uma crítica radical à injustiça e para pôr em marcha uma esperança nova.

Para onde foi a profecia da Igreja de Jesus? Onde se pode encontrar? Porque está tão neutralizada? Porque nos vemos privados do fogo dos profetas? Porque reduzimos o Evangelho ao catecismo?
Porque ocultamos o espírito de Jesus atrás de doutrinas e discursos que não geram esperança. Sem profetas, é difícil que a Igreja tome consciência do seu pecado de infidelidade a Jesus.

Entretanto, os pobres e oprimidos do mundo têm direito a saber se os seus sofrimentos importam alguma coisa aos seguidores de Jesus. Os jovens têm direito a saber se os discípulos de Jesus pensam no seu futuro e se têm alguma coisa a dizer sobre o mundo em que eles vão viver. Os que conhecem a Igreja de Jesus têm direito a perguntar porque não encontram nela resposta para as suas inquietações e interrogações, para os seus anseios e buscas de sentido e de esperança.

Nós pedimos vocações para o sacerdócio e para a vida religiosa, e está certo. Porém, será isto o que mais precisamos? Um número maior de sacerdotes e de religiosas que permitam a esta Igreja subsistir durante a maior parte de tempo possível? Não necessitamos, antes de mais, de homens e mulheres profetas que escutem e gritem o que o espírito de Jesus está a dizer hoje à Igreja e ao mundo?

[] Até quando vamos continuar a alimentar a tendência, contrária ao Evangelho, de construir comunidades fechadas em si mesmas, sem nos preocuparmos com as “ovelhas perdidas” que Deus continua hoje a procurar sem a colaboração dos cristãos?

E como podemos pretender ser seguidores de Jesus vivendo tão afastados do sofrimento das maiorias pobres do mundo? Como vamos falar em nome do Deus de Jesus sem pensar mais nos últimos da Terra? Quem são hoje os cristãos? Profetas que desmascaram a realidade da injustiça do mundo atual ou cúmplices que, oferecendo serviços religiosos tranquilizadores aos países do bem-estar, contribuem para a encobrir? 

Preocupamo-nos muito em conservar a memória dogmática de Jesus, ainda que às vezes fiquemos muito distantes dos sofrimentos da humanidade, porém, porque esquecemos Jesus Profeta, inseparável do sofrimento dos últimos? Porque nos detemos tanto em provocações e chamadas secundárias da mensagem de Jesus e não gritamos a “compaixão” como a primeira provocação do seu Evangelho?»

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