Jesus Cristo foi um incansável criador de esperança. Toda a
sua existência consistiu em infundir nos outros a esperança que Ele próprio
vivia no mais profundo do seu ser. É dele que ouvimos o seu grito convocador: «Cobrai
ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima» (Evangelho
segundo São Lucas 21, 28).
Os satisfeitos não se mexem
Os satisfeitos deste mundo não procuram nada realmente novo.
Eles não trabalham para mudar o mundo. Eles não estão interessados num futuro
melhor. Não se rebelam contra as injustiças, os sofrimentos e os absurdos do
mundo atual. Na realidade, este mundo é para eles “o céu” ao qual aspirariam
para sempre. Eles podem dar-se ao luxo de não esperar nada melhor.
A tentação dos satisfeitos
Como é tentador adaptar-se à situação, instalar-se
confortavelmente no nosso pequeno mundo e viver em paz, sem grandes aspirações.
Quase inconscientemente, temos a ilusão de sermos capazes de alcançar a nossa
própria felicidade sem mudar nada o mundo. Mas não esqueçamos: “Só quem fecha
os olhos e os ouvidos, só quem ficou insensível, pode sentir-se à vontade num
mundo como este” (Ruben Alves).
Jesus traz esperança ao nosso tempo em crise de desesperança
Quem ama verdadeiramente a vida e se sente solidário com
todos os seres humanos sofre ao ver que a grande maioria ainda não consegue
viver dignamente. Esse sofrimento e o desejo de o vencer são sinais de que somos
discípulos e mensageiros de Jesus.
Jesus não fala muito sobre a vida eterna. Ele não pretende
enganar ninguém fazendo descrições fantasiosas da vida após a morte. No
entanto, toda a sua vida desperta esperança. Vive a aliviar o sofrimento e a libertar
as pessoas do medo. Espalha uma confiança total em Deus. A sua paixão é tornar
a vida mais humana e alegre para todos, tal como quer o Pai de todos.
A característica mais preocupante do nosso tempo é a crise
da esperança. Perdemos o horizonte de um Futuro definitivo e as pequenas
esperanças desta vida acabam por não nos confortar. Este vazio de esperança
está a gerar em muitos a perda de confiança na vida. Nada vale a pena. O
niilismo total é fácil.
Estes tempos de desespero estão a pedir a todos nós, crentes
e não crentes, que nos façamos as perguntas mais radicais que carregamos dentro.
Não será este Deus de que muitos duvidam, que muitos abandonaram e por quem
outros continuam a pedir, o fundamento último sobre o qual podemos basear a
nossa confiança radical na vida? No fim de todos os caminhos, nas profundezas
de todos os nossos desejos, no interior das nossas interrogações e lutas, não
será Deus o Mistério último da salvação que procuramos?
O mistério último da vida pede-nos uma resposta lúcida e
responsável.
Esta resposta cabe a cada pessoa. Quero apagar da minha vida
toda a esperança suprema para além da morte como uma falsa ilusão que não nos
ajuda a viver? Quero permanecer aberto ao Mistério último da existência,
confiando que aí encontraremos a resposta, o acolhimento e a plenitude que já
procuramos?
José António Pagola, em Sem matar a esperança e Decisión de cada uno
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