Se a alegria, dom de Deus, é para todos os povos, porquê apenas alguns a sabem captar e experimentar?
Há acontecimentos, verdades, alegrias que só as pessoas humildes,
curiosas, sonhadoras, corajosas sabem captar. Assim é o nascimento do Menino
Jesus, o Salvador em Belém.
Quem mais corajoso do que José e Maria, que se fizeram à
estrada na etapa final de gravidez, e procuraram sem cessar um alojamento. Eles
sabiam, porque o anjo lhes tinha dito, que «o menino que vai nascer é Filho de
Deus».
São uns pobres pastores, considerados na sociedade judaica
como pessoas desonradas, marginalizados por muitos como pecadores, os únicos
que estão acordados para ouvir a notícia que os anjos de Deus têm para dar: «Nasceu-vos
um Salvador, que é o Messias Senhor.»
São assim os sábios que viajaram do Oriente para prestar
tributo.
É assim, porque Deus é gratuito. É por isso que Ele é mais facilmente
acolhido pelo povo pobre do que por aqueles que pensam poder adquirir tudo com
dinheiro.
É assim, porque Deus é simples, e está mais próximo do povo
humilde do que daqueles que vivem obcecados por ter cada vez mais.
É assim, porque Deus é bom, e compreendem-No melhor aqueles
que sabem amar-se como irmãos do que aqueles que vivem egoistamente, fechados
no seu bem-estar.
Os humildes têm um coração mais aberto a Jesus do que
aqueles que vivem satisfeitos. O seu coração encerra uma «sensibilidade ao
Evangelho» que nos ricos tem sido muitas vezes atrofiada. Os místicos têm razão
quando dizem que para receber e acolher Deus é necessário
"esvaziar-nos", "despojar-nos" e "fazer-nos
pobres".
Enquanto vivermos buscando a satisfação dos nossos desejos,
alheios aos dons e também aos sofrimento dos outros, conheceremos diferentes
graus de excitação, mas nunca a alegria que é anunciada aos pastores de Belém.
Enquanto continuarmos a alimentar o desejo de posse, não
poderá cantar entre nós a paz que se entoou em Belém: «A ideia de que a paz
pode ser promovida enquanto se encorajam os esforços de posse e lucro é uma
ilusão» (Erich Fromm).
Se não formos capazes de nos reunir em torno de Jesus, tanto
os humildes como os pastores, os curiosos como os magos, os corajosos como
Maria e José, teremos muitas coisas para desfrutar, mas estas não preencherão o
nosso vazio interior, o nosso tédio e solidão. E, ainda que alcancemos
conquistas cada vez mais notáveis, a rivalidade, o conflito e a competição
implacável crescerá entre nós, porque não aprendemos a ser filhos de Deus e irmãos
entre nós.
Outra característica dos despojados de si é que são capazes de partilhar a alegria recebida. Por isso, «os pastores começaram a divulgar o que lhes tinham dito a respeito daquele menino. E voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado»; e os «magos, ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho».
José António Pagola e Fernando Félix
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