Habituados a ouvir as «bem-aventuranças» tal como aparecem no evangelho de Mateus: para ler, clicar Mt 5, 1-12, é difícil para nós, cristãos dos países ricos, ler o texto que Lucas nos oferece - para ler, clicar Lc 6, 20-26.
Aparentemente, este evangelista – e um significativo número dos seus leitores – pertencia a uma classe rica. Contudo, longe de suavizar a mensagem de Jesus, Lucas apresenta-a de forma mais provocadora.
Juntamente com as «bem-aventuranças» aos pobres, o evangelista recorda as «desventuras» aos ricos:
«Bem-aventurados os pobres… os que agora têm fome… os que agora choram».
Mas, «aí de vós, os ricos… os que agora estão satisfeitos… os que agora se riem».
O Evangelho não pode ser ouvido da mesma forma por todos. Enquanto para os pobres é uma Boa Nova que os convida à esperança, para os ricos é uma ameaça que os chama à conversão.
Como escutar esta mensagem nas nossas comunidades cristãs?
Levar a sério os pobres
Jesus coloca-nos a todos diante da realidade mais sangrenta do mundo, a que mais o faz sofrer, a que mais atinge o coração de Deus, a que está mais presente diante dos seus olhos: os pobres. Uma realidade que, nos países ricos, tentamos ignorar, encobrindo de mil maneiras as mais cruéis injustiças, de que em grande parte somos cúmplices.
Queremos continuar a alimentar o autoengano ou abrir os olhos para a realidade dos pobres? Temos vontade de verdade? Será que algum dia levaremos a sério essa imensa maioria dos que vivem subnutridos e sem dignidade, os que não têm voz nem poder, os que não contam para a nossa marcha para o bem-estar?
Nós, cristãos, não descobrimos ainda a importância que podem ter os pobres na história do cristianismo. Dão-nos mais luz do que ninguém para nos vermos na nossa própria verdade, abalam a nossa consciência e nos convidam à conversão. Podem ajudar-nos a configurar a Igreja do futuro de uma forma mais evangélica. Podem tornar-nos mais humanos: mais capazes de austeridade, solidariedade e generosidade.
O abismo que separa ricos e pobres continua a crescer de forma imparável. No futuro será cada vez mais difícil apresentarmo-nos ao mundo como a Igreja de Jesus, ignorando os mais fracos e indefesos da Terra. Ou levamos a sério os pobres ou esquecemos o Evangelho. Nos países ricos será cada vez mais difícil ouvirmos o aviso de Jesus: «Não se pode servir a Deus e ao dinheiro.» Tornar-se-á insuportável para nós.
Um pormenor importante: rico não é condenado, se...
Em São Lucas, Jesus não condena os ricos, adverte-os.
No episódio do encontro com Zaqueu - ver Lucas 19, 1-10, Jesus leva a salvação à casa do publicano que era rico por roubar, e a salvação requer a reparação da injustiça feita. Na Bíblia, Deus é exemplo de reparação, e faz em dobro - ver Job 42, 10: «Enquanto Job rezava pelos seus amigos, o SENHOR restituiu-o ao seu primeiro estado e aumentou, no dobro, tudo o que antes possuía.»
Jaqueu, generoso, faz a reparação em quádruplo: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais»
É fantástico um pecador, um publicano, que não seguia as Leis de Deus nem os Mandamentos, conseguir fazer o que não conseguiu o homem rico, de que fala Lucas no capítulo anteior - ver Lucas 18, 18-26.
E na história do rico e Lázaro - ver Lucas 16, 19-31, o rico não é condenado pela sua riqueza, mas por não prestar atenção ao pobre Lazaro.
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