Na Semana Mundial da Harmonia Inter-religiosa, uma reflexão sobre o lugar do diálogo inter-religioso no dinamismo missionário
1. É bom recorrer sempre ao n.º
285 da carta encíclica Fratelli tutti e que remete para o Documento
sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum,
assinado pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, a 4 de
fevereiro de 2019, em Abu Dhabi: na relação entre as religiões, deve-se «adotar
a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o
conhecimento mútuo como método e critério» (FT 285). O conhecimento mútuo
obedece à premissa do encontro pessoal, com as portas do coração abertas a
diferentes sensibilidades e díspares formas de rezar ou de ansiar pelo divino.
De que modo se poderá combinar tal abertura desarmada e incondicional com o
dinamismo missionário? E qual será o lugar do diálogo inter-religioso em tal
dinamismo?
2. Talung é um complexo monástico
budista no remoto Tibete, situado a cerca de 120 quilómetros a norte de Lhasa,
cuja fundação remonta ao século xii.
Éramos dois peregrinos: um israelita e eu. Depois de termos sido acolhidos numa
pequenina casa de pastores, quando as minhas mãos já estavam a sofrer
dolorosamente os efeitos do frio, e de aí termos pernoitado, no meio do fumo e
do cheiro a chá amanteigado, prosseguimos a nossa marcha e chegámos às ruínas
resignadas daquele complexo budista que, nos seus tempos áureos, chegara a
albergar 7000 monges e agora contava com poucas dezenas, encontrando-se em
lenta fase de reconstrução do que ficara reduzido a escombros quando a fúria
dos homens por ali passara. Foi no meio de tais pedras que travei conhecimento
com aquele que viria a tornar-se um amigo muito caro que eu, a partir daquele
ano, procurava cada vez que visitava o Tibete.
3. Via e ouvia o meu amigo
tibetano a rezar e rezava com ele; e ele rezava comigo. Havia uma simbiose, sem
mistura nem contaminação de qualquer tipo de ingénuo sincretismo. Era a
abertura ao «conhecimento mútuo» que nos fazia irmãos na busca do transcendente.
Quando nos despedimos, aquando da minha última visita, encostámos as nossas
testas e procurámos conter as lágrimas. Guardo na memória uma foto dele de mão
dada com o seu neto, tendo o vale e as montanhas no horizonte. A sua filha
seguia a profissão do pai, tal como este já tinha seguido a da sua mãe:
medicina tradicional tibetana, com conhecimentos transmitidos de geração em
geração. Na sua oração, ele testemunhava a sua fé; eu procurava fazer o mesmo,
sentindo o meu interior sendo rasgado por um fio de luz. Era este o nosso
diálogo.
4. Voltemos à pergunta: qual o
lugar do diálogo inter-religioso no dinamismo missionário? Este nasce da paixão
testemunhal, sem resvalar, nunca, para as malhas do proselitismo. É preciso
acreditar mais na força do Espírito que nos delineia vias de encontro e de
fraternidade, forçando a uma escuta dos sinais e dos silêncios. Damo-nos conta
de que o diálogo é o caminho. E o diálogo realiza-se entre pessoas concretas,
que podem ou não ser explicitamente religiosas. O passo seguinte é a
colaboração comum, onde as roupagens institucionais passam a desempenhar um
papel meramente secundário.
Adelino Ascenso,
presbítero da
Sociedade Missionária da Boa Nova,
artigo conjunto da Missão Press
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