Uma noite de lamentações... quando Deus fica em silêncio - crónica de Yolanda Chávez, desde Los Ángeles, Estados Unidos da América
A ausência de Deus é obscura. O silêncio de Deus é
insuportável. Às vezes a única oração que nos resta é gritar.
Quando as instituições permanecem em silêncio diante do
sofrimento da nossa comunidade (migrante, vulnerável, perseguida, humilhada…), reunimo-nos
num encontro de almas feridas, de medo apertando o peito, de lamentos abafados,
de noites sem dormir, de preces sem resposta.
Reunimo-nos em comunidade para uma Noite de Oração e
Lamentação, para ousar nomear a dor, para deixar a desolação passar por nós sem
disfarçá-la com palavras de consolo artificiais e prematuras. Reunimo-nos para
gritar, para dizer sem medo o que muitas vezes escondemos: “Deus permaneceu em
silêncio”.
A tradição do lamento é antiga. O povo de Deus sempre clamou
no meio da injustiça, rasgou as suas roupas em momentos de desespero, perguntou
com a alma dilacerada: "Até quando, Senhor?" (Salmo 13).
Fizemos isso naquela noite também. Com uma tigela vazia nas
mãos, com cinzas na pele, com a cruz diante de nós, com os salmos dando forma à
nossa angústia. Atrevemo-nos a não fugir do vazio de Deus, a encarar de frente
a sua ausência gelada.
Não houve respostas. Não houve explicações. Houve lágrimas,
houve silêncio, houve indignação, houve companhia uns aos outros e juntos
sentimos o vazio do abandono. E nesse abandono, encontramos uma estranha
comunhão: a dor une quando Deus se cala.
Não sabemos se Deus responderá. Não sabemos quando ou como.
Mas naquela noite de domingo, sabíamos que não estávamos sozinhos na espera.
Não estamos sozinhos a carregar o peso de um Deus que se cala. Nós nos reunimos
em comunidade. Não para encontrar respostas, mas para chorar a ausência juntos.
No eco do nosso lamento, descobrimos que Deus não é uma
resposta, mas o abismo onde a fé e o silêncio se encontram e caminham juntos.
Yolanda Chávez, yolachavez66@gmail.com, desde Los Ángeles (Estados
Unidos da América), para Eclesalia
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