Lê Mateus 6
“Quando deres esmola...»
O conceito de «esmola», que o dicionário diz ser «o que se
dá aos pobres ou aos necessitados para os ajudar; contribuição que se dá
gratuitamente» – deveria ser atualizado
para «prestação de serviços de justiça de modo que ninguém precise de receber
esmola». Ou seja, para que a quantidade de coisas que alguns de nós têm em
excesso, devido a um determinado modo de vida, possa ser recebida com justiça
por aqueles que nem sequer têm o imprescindível.
Esta última palavra - imprescindível - traz-me à memória uma
frase atribuída a Pedro Casaldáliga: «O que não (te) é indispensável é roubado».
Penso que não precisa de ser explicada. É uma bofetada na cara da hipocrisia
pura e simples.
«Quando orares... entra no teu quarto, fecha a porta e reza
a teu Pai, que está em segredo, e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará.»
Precisamos de tempo, de sossego, de silêncio, de quietude, sobretudo, de
profundidade... também onde quer que a vida te leve: num engarrafamento, quando
cuidamos de um doente, na paisagem de um pôr do Sol, na conversa na paragem de
autocarro com uma pessoa idosa que precisa de falar, no “Menino” Jesus da minha
e tua vida, quando o teu filho/ a tua filha ou neto vai dormir, etc.
«Não acumuleis tesouros na terra… onde estiver o teu
tesouro, aí estará também o teu coração»
Dediquemos tempo às relações familiares, aos amigos, às
pessoas que precisam de companhia e de conversar (um fenómeno muito comum
ultimamente).
Jejuemos do mau humor, das críticas, mas partilhemos
esperança e sonhos por concretizar em conjunto.
Jejuemos do consumo excessivo, das visitas aos centros
comerciais, e dediquemos tempo os campos, aos jardins, aos passeios sozinhos ou
em grupo pela Natureza (Deus, como fazia com Adão e Eva, passeia hoje connosco
no jardim que é o mundo.
E aprenderemos que, assim como notamos o vazio do estômago
quando se jejua de algo comestível,
assim como ficamos com algum dinheiro ou outros bens a menos, quando os
partilhamos,
vamos ver que há muitas, muitas pessoas no mundo que vivem no
jejum e na pobreza, mas permanentes e não escolhidos.
A fome e a privação de bens e serviços imprescindíveis
(educação, saúde, liberdade, etc.) são uma maldição e uma injustiça.
A carência de relações, de laços de amizade e familiares é negação do Projeto
de Deus, que nos quer como Família sua.
Nem a
fome, nem a carência de humanidade se remedeiam com “esmolas”, nem com orações vazias
de gestos concretos. O que havemos de fazer está em Mateus 25
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