A Quaresma convida-nos a ler, no Evangelho de São Mateus, os capítulos 6 e 25


“Quando deres esmola...»
O conceito de «esmola», que o dicionário diz ser «o que se dá aos pobres ou aos necessitados para os ajudar; contribuição que se dá gratuitamente» –  deveria ser atualizado para «prestação de serviços de justiça de modo que ninguém precise de receber esmola». Ou seja, para que a quantidade de coisas que alguns de nós têm em excesso, devido a um determinado modo de vida, possa ser recebida com justiça por aqueles que nem sequer têm o imprescindível.
 
Esta última palavra - imprescindível - traz-me à memória uma frase atribuída a Pedro Casaldáliga: «O que não (te) é indispensável é roubado». Penso que não precisa de ser explicada. É uma bofetada na cara da hipocrisia pura e simples.
 
«Quando orares... entra no teu quarto, fecha a porta e reza a teu Pai, que está em segredo, e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará.»
Precisamos de tempo, de sossego, de silêncio, de quietude, sobretudo, de profundidade... também onde quer que a vida te leve: num engarrafamento, quando cuidamos de um doente, na paisagem de um pôr do Sol, na conversa na paragem de autocarro com uma pessoa idosa que precisa de falar, no “Menino” Jesus da minha e tua vida, quando o teu filho/ a tua filha ou neto vai dormir, etc.
 
«Não acumuleis tesouros na terra… onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração»
Dediquemos tempo às relações familiares, aos amigos, às pessoas que precisam de companhia e de conversar (um fenómeno muito comum ultimamente).
Jejuemos do mau humor, das críticas, mas partilhemos esperança e sonhos por concretizar em conjunto.
Jejuemos do consumo excessivo, das visitas aos centros comerciais, e dediquemos tempo os campos, aos jardins, aos passeios sozinhos ou em grupo pela Natureza (Deus, como fazia com Adão e Eva, passeia hoje connosco no jardim que é o mundo.
 
E aprenderemos que, assim como notamos o vazio do estômago quando se jejua de algo comestível,
assim como ficamos com algum dinheiro ou outros bens a menos, quando os partilhamos,
vamos ver que há muitas, muitas pessoas no mundo que vivem no jejum e na pobreza, mas permanentes e não escolhidos.
 
A fome e a privação de bens e serviços imprescindíveis (educação, saúde, liberdade, etc.) são uma maldição e uma injustiça.
A carência de relações, de laços de amizade e familiares é negação do Projeto de Deus, que nos quer como Família sua.

Nem a fome, nem a carência de humanidade se remedeiam com “esmolas”, nem com orações vazias de gestos concretos. O que havemos de fazer está em Mateus 25

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