O Cristianismo oferece uma chave para compreender a natureza humana e o combate entre o bem e o mal

Ao longo da História, os maiores pensadores da filosofia procuraram explicar, sem conseguir plenamente, a dualidade que torna o homem capaz tanto do melhor como do pior; pode tão facilmente mostrar um heroísmo admirável como pode ser culpado das piores atrocidades.

A doutrina cristã sobre o pecado original permite-nos compreender que o homem foi feito para o bem, mas tende para o mal porque nasceu imperfeito. O cristianismo é o único que trouxe esta verdade à luz, oferecendo assim uma luz admirável sobre a condição humana.

A luta entre o bem o mal na Bíblia 
Vários livros da Bíblia convergem, de modo independente e coerente, para este mistério (livro do Génesis, salmos, cartas de São Paulo, etc.).
 
Jesus disse: «Qual de vós, se o seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente? Ora bem, se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem!» (Mateus 7, 9-11; Lucas 11, 9-13)
 
São Paulo exprimiu com tanta precisão esta doutrina essencial na Carta aos Romanos, capítulo 7, versículos 15 ao 25:
«O que realizo, não o entendo; pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço.
Ora, se o que eu não quero é que faço, estou de acordo com a lei, reconheço que ela é boa. Mas então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Sim, eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico.
Ora, se o que eu não quero é que faço, então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Deparo, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance. Sim, eu sinto gosto pela lei de Deus, enquanto homem interior. Mas noto que há outra lei nos meus membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me prisioneiro na lei do pecado que está nos meus membros.
Que homem miserável sou eu! Quem me há de libertar deste corpo que pertence à morte? Graças a Deus, por Jesus Cristo, Senhor nosso!
Concluindo: eu sou o mesmo que, com o espírito, sirvo a lei de Deus e, com a carne, a lei do pecado.»
 
Síntese
Se o homem comete o mal tão facilmente, afirmam as Sagradas Escrituras, é porque há uma força misteriosa dentro dele que o impele a fazê-lo e contra a qual deve lutar durante toda a sua vida.
 
Os cristãos chamam a esta lei interior, a esta força, o peso do pecado original. Cada pessoa humana, afirmam, carrega em si a consequência deste pecado, uma espécie de desordem, uma desharmonização da nossa natureza, que torna o mal mais fácil de fazer do que o bem. Para fazer o bem e para fazer atos justos e ordeiros, eu tenho de lutar contra mim mesmo, contra algumas das minhas inclinações, enquanto para fazer o mal, só tenho de deixar correr.
 
Então, se eu não lutar contra mim mesmo, se eu não lutar contra alguns dos meus desejos ou alguns dos meus impulsos naturais, eu inevitavelmente acabo por fazer atos que, no fundo, por inspiração de Deus que me criou e me dotou de consciência, eu sei que não devo fazer.
 
Exemplificando: é fácil sucumbir à raiva, à cobardia ou à impureza: basta deixar-me ir. Por outro lado, o autocontrolo, a coragem ou a temperança exigem esforço, uma verdadeira luta contra mim mesmo.
 
Assim, à pergunta «a pessoa é intrinsecamente má?», devemos responder que não, a pessoa não é má em essência. Se ela tende para o mal, é simplesmente porque não nasceu perfeita.
 
Devemos dizer que a pessoa é por natureza imatura e inacabada? Claro que não! Assim como fisicamente a pessoa nasce criança, frágil e sem forças, assim também oralmente ela nasce sem força para fazer o bem. E, assim como a pessoa deve ser nutrida para crescer, assim também deve cultivar a sua capacidade de fazer o bem para a fortalecer.
 
Assim como a pessoa não é feita para permanecer uma criança, mas para se tornar adulta. Do mesmo modo, não está destinada a permanecer prisioneira da sua tendência para o mal, mas a desenvolver em si mesma a força para fazer o bem. E quanto mais ela a exercitar, mais natural a bondade se tornará para ele.
 
A pessoa, portanto, não é má em essência. Pelo contrário, é feita para o bem. Mas isso não se faz sem esforço. Ela deve travar uma dura e amarga batalha contra si mesma, a fim de transformar pouco a pouco as suas tendências para o mal (vícios) em tendências para o bem (virtudes).
 
Antoine de Montalivet, em 1000raisonsdecroire

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