O que causa dor aos outros deixou de indignar-nos?

Uma criança ou um adolescente com uma arma deve indignar-nos.

Um grupo de criminosos que espancam trabalhadores deve indignar-nos.

Uma pessoa morta pela violência no país deve indignar-nos.

A descoberta de uma vala comum, em qualquer lugar ou região, deve indignar-nos.

O desaparecimento forçado de uma única pessoa deve indignar-nos.

Ver milhares de mães, pais, irmãos, irmãs, avós, avôs à procura dos seus familiares raptados pelo crime deve indignar-nos.

Porque deixamos de indignar-nos?
Tantas vezes as vítimas de crimes gritaram “queremos justiça”, que deixámos de as ouvir.

Tantas vezes ouvimos a notícia de alguém próximo de nós que morreu às mãos do crime, que deixámos de ser sensíveis.

Ouvimos falar de uma morte aqui e ali...
Estes números não são nossos. São os que foram relatados tantas vezes que ouvi-los se tornou uma ocorrência quotidiana.

Já nos indignámos tantas vezes com a violência que deixámos de nos indignar. 

No meio deste barulho ensurdecedor de números, dor e violência, deixámos de ouvir aqueles que sofrem.

A nossa escuta desapareceu e temos de a recuperar.

Ouvir, antes de mais, as vítimas da violência, ouvir as famílias das vítimas, ouvir todos aqueles que podem contribuir para erradicar este mal que nos está a tirar uma parte da nossa humanidade.

Escutar o nosso próprio coração para examinar o que estamos a fazer no nosso pequeno, médio ou grande campo de ação. Sem politizar, sem polarizar, sem fazer mais barulho sobre algo que já é escandaloso.

As mães que procuram, que se tornaram famílias que procuram, ensinaram-nos como os valores da família dão resultados, como o amor, a força e a coragem são capazes de as sustentar mesmo nos momentos mais difíceis, como a dor é mais suportável se for acompanhada pela família, em fraternidade com outros que vos dizem “estou aqui para ti, porque não procuro apenas a minha pessoa desaparecida, procuramos a pessoa desaparecida de todos”.

Porque, mesmo que não queiramos ver as coisas dessa forma, a realidade é que todos e cada um dos seus desaparecidos são os nossos desaparecidos.

Apelamos também, portanto, a seguir o exemplo destas mães que procuram, destas famílias que procuram, e a fazer nossos os valores que as tornam fortes, valores que Cristo nos ensinou.

É precisamente a ausência destes valores familiares que não conseguimos promover, a razão pela qual o nosso tecido social se desmoronou. As famílias em busca deixam-nos claro que as famílias são a esperança do mundo, mesmo no meio da dor e da adversidade.

Traduzido de Desde la fé

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