Reconstruir a esperança, esta é a atitude humana responsável para hoje - reflexão do frei Miguel Ángel Gullón Pérez

Estamos a viver uma conjuntura histórica em que predomina a perceção social de crise(s): crise de valores, crise de identidade, crise da família, crise da juventude, etc. De todas as crises que estamos a viver, é de destacar a chamada crise das utopias: as grandes utopias sociais entraram em crise, isto é, perderam a sua vigência ou, pelo menos, a força motriz que as mantinha presentes em largos estratos da sociedade. O neoliberalismo impôs-se como a única utopia sobre todas as outras utopias de carácter comunitário, social, etc.

Texto de Fr. Miguel Ángel Gullón Pérez, O.P., em Religión Digital

Há muitas pessoas que, no meio deste clima de crise, colapso, medo, agressividade, desespero, etc., acreditam que a única atitude humana responsável é a reconstrução da esperança. Mas não uma esperança voluntarista, ingénua, ideológica ou ilusória, mas uma esperança histórica, real e criadora de alternativas. 

Assim, neste contexto de colapso total da esperança, nasce um imperativo para a sua reconstrução, que inclui os empobrecidos, os oprimidos, os excluídos e a Natureza; uma esperança com base económica e social e uma estratégia concreta para a sua realização.

Pensando numa escala maior, esta bela missão de construir a esperança, com uma base sólida em alternativas económicas ao atual sistema de economia de mercado livre, tem de lutar contra todas as pessoas que a veem como um ato irracional, até mesmo subversivo. Para eles a destruição da esperança aparece como uma necessidade profunda e estrutural que impõe a submissão cega à Nova Ordem Internacional; a desesperança é como o espírito que a faz viver.

Não podemos ceder a esta premonição, porque isso equivaleria a um achatamento da espiritualidade de resistência dos oprimidos, da vontade política dos povos e, em última análise, conduziria a uma deslegitimação de toda a teoria crítica e de toda a utopia.

A utopia serve para caminhar
Assim, diz Pablo Richard, «temos de viver este período de transição com paciência histórica e sem desespero, que é um período de discernimento, de gestação lenta e paciente. Cabe-nos agora lançar os alicerces e criar alternativas, esperando que a História amadureça [...] e que se produza o doloroso nascimento da sociedade que sonhamos para a felicidade de todos». (1)

A opção utópica consiste em ultrapassar os impasses das utopias de ontem e em reformular a nova utopia a partir da realidade atual. Por isso, o primeiro passo é conhecer em profundidade o mundo em que vivemos, as suas contradições, os seus mecanismos de controlo e as suas crises. Na análise quantitativa e qualitativa da atual crise generalizada e dos desafios que ela coloca, encontraremos a utopia de que precisamos. As alternativas surgem quando são procuradas, sobretudo se forem procuradas coletivamente. A esperança nasce da luta e da paixão pela vida.

Temos de abrir os olhos e perceber que há muitas pessoas e comunidades que se estão a mover-se para que outros possam viver. Está a consolidar-se uma nova consciência, novos movimentos e atores sociais que constroem laboriosamente a sociedade civil com o objetivo de retirar as pessoas da opressão e da violência do poder autoritário, inspirados nas grandes utopias bíblicas como a do profeta Isaías: “Eis que eu crio novos céus e uma nova terra” (Is 65, 17).

(1) Pablo RICHARD, “¿Esperanza o caos? Fundamentos y alternativas para el siglo XXI”, Senderos 49-50 (1995) 20.

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