A Cruz - história, interpretação e simbolismo

O significado da cruz foi tão pervertido que é difícil propor uma leitura positiva da mesma. Tem-se dito da cruz:
- que foi a consequência do pecado humano;
- que foi o castigo que Deus infligiu ao seu próprio filho para pagar a dívida do pecado;
- que foi a forma como Jesus expiou o nosso pecado e, assim, nos redimiu, salvou as nossas almas e abriu as portas do Céu...

Tomada à letra, esta forma de a apresentar resultou na exaltação da dor, na imagem do ser humano como essencialmente pecador desde o seu nascimento e na ideia de um Deus sádico, vingativo e cruel. De tal modo que não podemos deixar de nos interrogar como é que uma grande parte da humanidade foi capaz de acreditar, durante séculos, numa tal caricatura de Deus.

Deixando de lado toda esta interpretação, tal como foi moldada ao longo de gerações no ensino da Igreja, transmitida através dos catecismos e da pregação, há uma outra interpretação do facto da cruz que é mais exata, tanto histórica como simbolicamente.

Historicamente, sobressaem dois elementos: por um lado, a cruz foi a condenação injustificável e cruel dos poderes instituídos contra um homem inocente que, por várias razões, os incomodava e de quem queriam livrar-se a todo o custo; por outro lado, evidencia a lucidez e a coerência de Jesus, vivendo a fidelidade a si próprio acima até do apego à sua própria vida.

Simbolicamente, a cruz transmite um duplo significado: por um lado, a sua própria forma - vertical e horizontal - simboliza a unidade do alto, do profundo e do largo, do céu e da terra, de tudo o que é real; neste sentido, a cruz é um abraço que exprime a unidade radical de tudo o que é; por outro lado, o crucificado simboliza o sábio que deixa “pregado” o seu próprio ego  –  desidentificou-se dele  – e vive na verdade – serena, alegre e entregue – daquilo que é.

Enrique Martínez Lozano, em Fé Adulta

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