Há momentos na vida em que as experiências são tão dolorosas que podem extinguir qualquer desejo de seguir em frente, de renascer e de se reconstruir. Um tal momento de medo e desespero deve ter sido vivido pelos discípulos de Jesus perante a sua paixão e morte na cruz.
Texto de Bernardino
Zanella, em Eclesalia Informativo
O Evangelho de João 20, 19-31 é a primeira aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos. Eles, que se tinham dispersado durante a paixão, estão agora reunidos com medo. Estão no Cenáculo “com as portas fechadas por medo dos judeus”: a violência desencadeada contra Jesus poderia estender-se aos seus seguidores. E os seus corações estão fechados e dolorosos: como perdoar-se a si próprios pela negação, pelo abandono, pela traição? E que futuro os espera? Aos seus olhos, Jesus foi derrotado. Os seus inimigos, que o penduraram na cruz, são os vencedores.
O evangelho não descreve o caminho interior que os discípulos devem ter feito para passar desta situação de terrível angústia para o momento em que “se alegram” com a certeza de que Jesus está vivo. Sem dúvida, a fé e a determinação de Maria Madalena e das outras mulheres ajudaram-nos de forma decisiva.
A presença e a confiança em Jesus ressuscitado libertam-nos do medo. Ele manifesta-se dizendo: “A paz esteja convosco.” Para os discípulos, temerosos e desamparados, que tinham desaparecido durante a paixão, nenhuma censura: apenas uma mensagem de paz. É a paz entre Deus e a humanidade, a reconciliação e a pacificação do coração, a comunhão e a harmonia com toda a humanidade e com toda a criação. É a paz que Jesus tinha prometido aos discípulos, angustiados com o anúncio da sua partida: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.”
Poucas palavras podem exprimir tão bem a condição de bem-estar total que Jesus oferece. É a paz que os discípulos não perdem mesmo perante a perseguição e a cruz, na luta pela justiça e pela verdade. Ele está no meio deles, como prometeu: “Não vos deixarei órfãos”. Ele é a fonte da vida e da esperança: no meio do mundo, os discípulos estarão em dificuldades, mas “tende coragem, porque eu venci o mundo”. Não haverá mais uma comunidade de discípulos “com as portas fechadas pelo medo”. Como sinais da sua vitória, Jesus mostra-lhes as suas mãos e o seu lado. São os sinais do amor até ao fim, da verdadeira vida, que a morte não conseguiu vencer. São agora as mãos nas quais confiar, as mãos nas quais o Pai confiou tudo, as mãos que lavaram os pés dos discípulos na última ceia, as mãos que cuidam e defendem as ovelhas: “Eu dou-lhes a vida definitiva e elas nunca se perderão e ninguém as arrebatará das minhas mãos”. E o lado, o coração trespassado, fiel à aliança selada com o seu sangue.
Daí a alegria. Não porque já não haja perigos e perseguições, mas porque o Senhor está vivo e presente, e ama os seus. Com ele, o sofrimento será como as dores do parto, que se transformam em alegria quando nasce uma nova vida. Com este apoio, com esta certeza, os discípulos podem sair do seu refúgio e lançar-se em missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós”.
A partir da experiência dolorosa da fragilidade dos discípulos, Jesus propõe-lhes que continuem a sua obra. Terão de repetir os mesmos gestos de cura e de perdão, os gestos que revelam a grande compaixão do Pai pela dor infinita do mundo. É por isso que Jesus foi enviado: para se tornar nosso irmão, para partilhar a nossa miséria, para se tornar leproso com os leprosos, excluído com os excluídos.
“Do mesmo modo vos envio": a missão dos discípulos tem a sua origem e o seu modelo na missão de Jesus, será o seu prolongamento. Os seus discípulos permanecerão frágeis e vulneráveis, mas terão uma energia extraordinária que lhes permitirá vencer o medo e anunciar com coragem que o Senhor está vivo e que as trevas e a morte podem ser vencidas: “Recebei o Espírito Santo.” O Espírito que Jesus comunica aos discípulos dá-lhes força para assumirem a missão que ele lhes confia.
Ele “soprou sobre eles”, como Deus soprou no homem o seu sopro de vida na primeira criação: eles serão uma nova criação, uma nova humanidade. “Os pecados serão perdoados àqueles a quem perdoardes os pecados e serão retidos por aqueles a quem os retiverdes": o perdão é o primeiro fruto do Espírito. Com o dom do Espírito, os discípulos serão mensageiros da misericórdia de Deus, anunciando o perdão dos pecados a todos aqueles que não resistem ao amor, para formar uma comunidade reconciliada, de portas abertas, fraterna, justa, humilde e pobre, acolhedora, enviada ao mundo inteiro, em diálogo com as diferentes raças e culturas, sem exclusão nem discriminação, uma comunidade de discípulos missionários. “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito": renascidos pelo Espírito, os discípulos são chamados a ser esta nova humanidade, com que Deus sonhou desde o início.
O apóstolo Tomé não está presente. Separado da comunidade, não fez a experiência da ressurreição do Senhor e procurou-o no passado: “Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos, se não puser o meu dedo no lugar dos pregos e a minha mão no seu lado, não acreditarei”. A sua dúvida, que é a nossa dúvida, permite-lhe chegar à mais alta confissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus”, e ouvir a bem-aventurança para todas as gerações futuras de discípulos de Jesus: “Bem-aventurados os que acreditam sem ter visto!
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