No início era só um sussurro, tímido, contido. Mas cresceu. Tornou-se crítica aberta, dissidência clara. Há quem desejasse que o Papa Francisco voltasse para o “fim do mundo” de onde veio. Como se o Evangelho tivesse endereço fixo.
Desiludidos estavam alguns cardeais que o elegeram esperando paz, estabilidade, continuidade. Não contavam com reformas, com cortes na pompa, com a denúncia silenciosa da sua simplicidade contra a ostentação da Cúria.
Desiludidos estavam os bispos de carreira. Sonhavam promoções, esperavam reconhecimento. Receberam um Papa que os convidava a ter o “cheiro das ovelhas”, a descer dos palcos e ajoelhar-se no chão dos últimos.
Desiludidos estavam muitos padres, formados na rigidez da doutrina, afastados do sofrimento real do povo. Francisco falava-lhes de ternura, de proximidade, de lágrimas. E eles não sabem o que fazer com esse Evangelho que pede coração.
Desiludidos estavam os leigos de todos os lados: os que acham que fazia demais e os que acham que fazia de menos. Uns queriam rupturas, outros queriam paredes mais altas. Mas ele ofereceu pontes. E isso confunde.
Mas há outros…
Os pobres, os pequenos, os invisíveis — esses sorriram. Os que durante anos foram postos de lado por viverem o Evangelho com coragem — esses agradeceram. Porque Francisco os viu, os escutou, os honrou! Porque com ele o Evangelho voltou a ter rosto. Voltou a ser Boa Nova.
Quem são os desiludidos com Francisco?
Talvez os mesmos que, se desiludiram com Jesus.
Este texto do presbítero João Torres, presbítero cigano da diocese de Braga, inspira-se em Alberto Maggi (presbítero e teólogo, biblista, frei da Ordem dos Servos de Maria), em IL LIBRAIO:
Papa Francisco, que desilusão
«No início era apenas um murmúrio discreto, depois passou a ser um murmúrio cada vez maior e agora, sem mais hesitações, uma dissidência aberta contra o papa que veio do fim do mundo (e há tantos que gostariam de o fazer regressar).
O Papa Francisco conseguiu desiludir toda a gente num curto espaço de tempo. E a desilusão transforma-se num ressentimento, primeiro latente e agora manifesto.
Os desiludidos
Muitos dos cardeais, que também o elegeram, estão desiludidos. Era o homem ideal, sem esqueletos no guarda-roupa, doutrinariamente seguro, tradicionalista, mas com aberturas aceitáveis para o novo. Teria sido capaz de garantir um período de tranquilidade para a Igreja, que tinha sido atingida por um terramoto de escândalos e divisões. Nunca teriam pensado que Bergoglio reformaria nada mais nada menos do que a Cúria Romana, eliminaria privilégios e flagelaria as vaidades do clero. A sua presença, sóbria e espontânea, é uma denúncia constante dos prelados pomposos, faraós anacrónicos cheios de si.
Desiludidos estão os bispos de carreira, aqueles para quem a nomeação numa cidade era apenas o pedestal para um cargo mais prestigiado. Estavam prontos a clonar-se com o pontífice do dia, a imitá-lo em tudo, desde o vestuário à doutrina, só para caírem nas suas boas graças e ganharem o seu favor. Agora, este papa convida os bispos ambiciosos e vaidosos a terem o cheiro das ovelhas... que horror!
Grande parte do clero está desiludido. Sente-se deslocado. Criados numa estrita adesão à doutrina, indiferentes ao bem das pessoas, não sabem agora como se comportar. Têm de recuperar uma humanidade que a observância das normas eclesiais atrofiou. Acreditavam estar, como padres, acima das pessoas, e agora este papa convida-os a descer e a pôr-se ao serviço dos últimos.
Desiludidos estão também os leigos empenhados na renovação da Igreja e os super-tradicionalistas, tenazmente agarrados ao passado. Para estes últimos, o papa é um traidor que está a levar a Igreja à ruína. Para os primeiros, o Papa Bergoglio não faz o suficiente, não muda as normas e a legislação que já não estão em sintonia com os tempos, não legisla, não usa a sua autoridade de comandante em chefe.
Os entusiasmados
Entusiasmados com ele estão os pobres, os marginalizados, os invisíveis, e também todos aqueles, cardeais, bispos, padres e leigos, que durante décadas foram marginalizados por causa da sua fidelidade ao Evangelho, vistos com suspeita e perseguidos pela sua mania da Sagrada Escritura em detrimento da tradição. O que eles apenas esperavam, imaginavam ou sonhavam tornou-se realidade com Francisco, o papa que fez o mundo redescobrir o perfume do Evangelho.
O AUTOR - Alberto Maggi, frade da Ordem dos Servos de Maria, estudou nas Pontifícias Faculdades Teológicas Marianum e Gregoriana, em Roma, e na École Biblique et Archéologique française, em Jerusalém. Fundador do Centro Studi Biblici “G. Vannucci” (www.studibiblici.it) em Montefano (Macerata), tem a seu cargo a difusão das sagradas escrituras, interpretando-as sempre ao serviço da justiça, nunca do poder. Publicou, entre outros: Roba da preti; Nostra Signora degli eretici; Come leggere il Vangelo (e non perdere la fede); Parabole come pietre; La follia di Dio e Versetti pericolosi. Está nas livrarias com Garzanti Chi non muore si rivede - Il mio viaggio di fede e allegria tra il dolore e la vita.
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