«Com que Igreja sonhamos nós, mulheres que servimos em silêncio? O que aconteceria se ouvíssemos as nossas profetisas?»
Após a morte do Papa Francisco, a Igreja Católica está novamente a entrar num período de espera, discernimento e transição. Enquanto o mundo olha para Roma, muitos olhos voltam-se também para o Espírito que sopra para além dos muros do Vaticano.
Texto de Yolanda Chávez* (yolachavez66@gmail.com), de Los Angeles (EUA), em Eclesalia informativo
Este texto nasce como uma meditação imaginativa sobre a figura de Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179) - mística, profetisa, médica, teóloga, compositora e conselheira de papas - que no seu tempo desafiou a rigidez da hierarquia eclesiástica com visões ardentes de justiça, criatividade e sabedoria divina. Hildegard denunciou a corrupção do clero, defendeu o canto como um caminho espiritual e escreveu com fogo sobre a necessidade de uma Igreja viva, ligada à criação e em profunda escuta da alma feminina.
Hoje, na aurora de um novo conclave, podemos perguntar: o que é que Hildegard sussurraria se ouvíssemos a sua voz neste momento? Este poema tenta captar esse sussurro ardente.
O Espírito não espera pelo conclave
Não esperes pelo novo papa
como se o Reino viesse com ele.
O Espírito não habita apenas no palácio romano.
Sopra nas fendas,
nas cozinhas onde se reza em silêncio,
nos pés que andam sem papéis,
nas mulheres que ensinam sem púlpito.
Vi no meu espírito
uma Igreja que se tornou rígida,
como uma árvore velha
que resiste à primavera.
A sua casca era doutrina sem compaixão,
e os seus ramos, palavras secas sem fruto.
Mas também vi a seiva:
essa força verde
que se ergue das profundezas quando ninguém a vê.
A seiva é a justiça,
é canto,
é um corpo que não tem vergonha de sentir Deus.
A vós, mulheres de fé,
parteiras do sentido, no meio do sem sentido,
eu digo-vos:
Não espereis pela renovação do alto.
Fazei-a germinar onde pisais.
Que a vossa voz não seja abafada.
Que a vossa canção não peça licença.
Porque a Palavra já foi semeada em vós
como uma semente que ouve a luz.
E àquele que vem,
a quem escolherem como sucessor de Pedro,
rezai por ele.
Mas lembrai-lhe, com firmeza e ternura,
que a Igreja é uma sinfonia,
e não um único instrumento.
Que não há santidade sem justiça.
Não há profecia sem a escuta das mulheres.
Não há Igreja sem a seiva do Espírito
que dança onde quer
e não precisa de conclave
para estar presente.
Enquanto preparava um retiro espiritual para mulheres, sentei-me para escrever este texto como um exercício de escuta interior. Não surgiu da urgência de dizer alguma coisa, mas do desejo de abrir um espaço de ressonância profunda, inspirado por duas fontes que se entrelaçaram no meu coração: o legado indomável de Santa Hildegarda de Bingen e a ansiedade partilhada por muitos de nós perante a eleição de um novo papa.
Não o escrevi para antecipar respostas, mas para invocar questões mais profundas. Perguntas que brotam das almas das mulheres que caminharam com a Igreja, servindo em silêncio, sonhando em silêncio: com que Igreja sonhamos nós, mulheres que servimos em silêncio? Onde está o Espírito quando o mundo olha para Roma? E o que aconteceria se ouvíssemos as nossas profetisas?
Esta reflexão não pretende ser uma representação literal de Hildegard. Não é uma reconstrução histórica nem uma ficção piedosa. É antes um sussurro do seu fogo místico, uma evocação do seu espírito visionário, uma centelha acesa no meio deste tempo de espera. É em parte uma oração. Em parte, um aviso. E, acima de tudo, uma lembrança de que a seiva da Igreja não flui apenas do alto, mas também do fundo do coração.
* Yolanda Chávez, M.Div., é uma teóloga católica, é membro da Ecumenical Association of Theologians of the Third World (ASETT) e uma colaboradora essencial na missão evangelizadora e catequética do Departamento Arquidiocesano de Educação Religiosa de Los Angeles, como Professor Mestre Catequista certificada. Possui um Mestrado em Divindade (M. Div.) do Fuller Theological Seminary em Pasadena, Califórnia, onde atualmente é candidata a um doutoramento em ministério com foco na Espiritualidade Feminina. É promotora do ministério de Espiritualidade Feminina em espanhol, no Holy Spirit Retreat Center em Encino, Califórnia.
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