Desclericalizar a Igreja - texto de Merche Sainz, de Redes Cristianas, uma visão alternativa da Igreja Católica e da sociedade

A Igreja Católica, em particular, tem sido chamada a desclericalizar-se para se tornar mais inclusiva, sinodal e ministerial, valorizando a participação de homens e mulheres leigos junto com o clero nas atividades da Igreja.

A exigência de desclericalização da Igreja Católica não é um simples pedido; é uma exigência que nasce da profunda crise de credibilidade que a instituição está a enfrentar. A resistência à ordenação sacerdotal das mulheres, longe de ser um obstáculo teológico inamovível, revela-se como uma desculpa que encobre a falta de vontade de enfrentar as mudanças estruturais necessárias.

Argumentar que a ordenação de mulheres conduz a uma “dupla clericalização” é uma falácia que ignora a verdadeira natureza do problema. A clericalização não está no género, mas na estrutura de poder piramidal e patriarcal que concentra o poder numa elite clerical, perpetuando uma cultura de privilégio e opacidade.

A solução não reside na simples inclusão de mulheres numa estrutura clerical já de si disfuncional. É necessária uma transformação radical que desmantele o sistema hierárquico e promova uma igreja mais participativa, horizontal e transparente. Isto implica uma redefinição do sacerdócio, afastando-o da conceção tradicional de poder reservado a poucos, em direção a um modelo de liderança partilhada e de serviço à comunidade. O acesso aos ministérios e responsabilidades da Igreja deve basear-se na vocação, na formação teológica e na capacidade de liderança, independentemente do género.

A resistência à mudança baseia-se no medo de questionar o poder estabelecido. No entanto, a perpetuação desta condição atual apenas aprofunda a crise de fé e afasta as novas gerações. O Papa Leão, que herdou uma tradição profundamente enraizada, tem a responsabilidade histórica de promover uma desclericalização efectiva. Isto não implica uma revolução violenta, mas um processo gradual mas constante de reformas estruturais, teológicas e culturais. Exige uma abertura ao diálogo, uma escuta atenta das vozes dos leigos, especialmente das mulheres, e um verdadeiro empenhamento na justiça e na equidade.

A desclericalização não é um luxo, mas uma necessidade vital para a sobrevivência da Igreja Católica. O futuro da Igreja não está na defesa de dogmas ultrapassados, mas na sua capacidade de se adaptar aos tempos, abraçando a diversidade e dando poder a todos os seus membros. O apelo à declericalização é um apelo à renovação espiritual e à construção de uma Igreja verdadeiramente ao serviço do povo de Deus.

Merche Sainz, em Redes Cristianas

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