Em cada domingo do tempo pascal, somos convidados a repensar a nossa fé, o encontro com Cristo que se realiza e se desenvolve na vida quotidiana, na labuta diária das nossas tarefas. Isto significa que a ressurreição deve ser experimentada no presente que vivemos.
É por isso que, nas aparições pascais, as refeições onde o pão é partido, distribuído e partilhado, onde tudo é posto em comum e onde o serviço é prestado aos mais necessitados, aos que estão em dificuldade, são de grande importância.
No mundo globalizado em que vivemos, que sentido damos à fé?
O que significa hoje celebrar a Páscoa numa sociedade materialista, onde
predomina o imediatismo, a descrença e a indiferença religiosa?
Onde estão as
nossas crianças, os jovens e os adultos durante a pausa pascal?
E que é feito daqueles que
receberam uma educação na fé numa comunidade paroquial cristã empenhada e, no
entanto, se desligaram ou se distanciaram das celebrações e mostram um total
desinteresse em transmitir a fé recebida?
O que não temos dúvidas é que o Abba
Deus continua a chamar cada pessoa de formas insuspeitas, através de outras
mediações que, felizmente, transcendem todas as nossas expectativas.
Mas, por outro lado, será que a Igreja Católica é coerente e
credível ao manter uma estrutura patriarcal, misógina, onde prevalecem as
relações de poder, onde uns são privilegiados em detrimento de outros(as)?
Dicas para viver a ressurreição como vivência apaixonante
O Senhor ressuscitado está também presente
no trabalho que, em espírito de solidariedade, os discípulos realizam de forma
simples, sem declarações altissonantes, no duro caminho da vida. O Senhor
“aparece” na história humana para nos ajudar a fazer dos nossos passos uma
história de salvação.
A primeira leitura dos Atos dos Apóstolos (At 5, 27b-32.
40b-41) mostra-nos como, nas primeiras comunidades, se viu a necessidade de
desobedecer formalmente a uma ordem da autoridade, porque ia contra as
exigências radicais do Evangelho. Somos nós testemunhas qualificadas -
“Testemunhas disto somos nós e o Espírito Santo” -, perante qualquer autoridade
que nos peça para sermos servis, complacentes com as suas exigências, cúmplices
dos seus enganos?
No Evangelho de João (Jo 21, 1-19), «Jesus vem, toma o pão e dá-lho, e o mesmo
acontece com o peixe.»
Em que mesas tornamos hoje presente o Ressuscitado? Que
sinais exteriores revelam a autenticidade da “minha ressurreição” interior, o
encontro real em que Jesus me pergunta se o amo?
Que chaves nos podem ajudar a viver a ressurreição como um
caminho de renovação, experimental, apaixonante?
- Acolher e agradecer as pequenas coisas de cada dia como
uma dádiva: cada nascer/pôr do sol, o ar que respiro, um prato de comida na
mesa, a casa onde vivo, o nascimento de cada ser humano, a plantinha ou a
árvore que volta a crescer...
- Viver o presente, que me coloca em contacto com a
eternidade, faz-me olhar para além das limitações, venham elas de onde
vierem...
- Contemplar os acontecimentos, as situações, as notícias
como uma oportunidade para ver a trama, a urdidura da vida, o mistério que nos
envolve, a mão misteriosa que nos guia no oculto...
- Deixar de ruminar os fracassos do passado, o bem que não
fiz, a culpa que me angustia, os pensamentos que me enredam...
- Não me preocupar com a insegurança do futuro: o trabalho,
a saúde, a família, a situação do mundo; não há medo se confio que estou nas
mãos de Deus.
- Olhar para cada homem ou mulher sem fazer distinções de
aparência, sexo, etnia, condição social... porque somos todos irmãos e irmãs e
até considerar aqueles que causam dor aos mais necessitados, aos inocentes... e
rezar ao Senhor por eles para que mudem de atitude...
- Alimentar-me todos os dias da Palavra de Deus que me
nutre, me sustenta, me transforma, me impele a seguir os seus passos mesmo nas
adversidades da existência.
- Encontrar espaços de contemplação e de silêncio que me
ajudem a saborear o diálogo autêntico de Deus em mim e de mim nele.
- Caminhar cada dia tendo presente as bem-aventuranças de
Jesus e a subversão de valores que elas implicam para a minha vida. E se não
tiver forças para mudar, peço ao Abba Deus que não me largue a mão.
- Ter em mente a morte, não como o fim do caminho, mas como
o início da Vida, o “eu sou” definitivo, a entrada do meu Ser em plenitude, ou
seja, o encontro definitivo com Cristo na outra margem da eternidade.
O encontro definitivo passa pelos encontros quotidianos
nesta margem da vida. Somos nós, cristãos, um sinal autêntico da presença do
Ressuscitado hoje?
Paz!
Maria Luisa Paret, em Fé Adulta
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