Nas pegadas de Jesus Ressuscitado, com os pobres e maltratados na vida - testemunho de uma leiga missionária

Carmen Aranda é leiga missionária comboniana (LMC). Natural de Múrcia, Espanha, já esteve em missão no Uganda. Trabalha na Caritas e conta como é estar nas 
pegadas de Jesus Ressuscitado, com os pobres e maltratados na vida, na página dos LMC de Espanha 

«Por vezes vemos pessoas como nós e não conseguimos imaginar a vida que têm atrás de si. Na Cáritas atendemos muitas pessoas, quase “toda a gente” que chega à espera de soluções imediatas, comida, ajuda, conforto, ou o que quer que seja. Quando são muitos, corremos o risco de não “ver” a pessoa, mas o número, de não ver o que passaram, ou o que viveram, mas “o que estão a pedir”.

Há histórias de famílias, de crianças que vêm sozinhas, de mulheres com filhos. Chegam a Espanha feridos e com expectativas. Alguns por opção e outros empurrados pelos conflitos que os afastam da sua terra, das suas casas e do abraço das suas famílias.

Quando ouvimos histórias que nem sequer imaginamos num filme, apercebemo-nos de como o mundo é grande e de como os humanos são maus, mas também de como precisamos de Deus e de ter uma mente e um coração dispostos.

No meio desse acompanhamento, por vezes no desabafo, verbaliza-se que se está “em desacordo com Deus”, "como é que um Deus bom permitiu que eu sofresse tanto?!..."; "Onde estava Deus quando me ameaçaram de morte?", "Onde estava Deus quando me expulsaram de casa e me roubaram tudo o que tinha?"

Aconteceu-me... por inspiração, estava no gabinete e ocorreu-me convidar uma destas pessoas feridas a participar na Páscoa na paróquia. Um Tríduo vivido em comunidade. 

Ela não me diz que não, mas não tem a certeza de que viria. Tem a coragem de o fazer. Senta-se no último banco da igreja, como se quisesse ver, mas de longe, perto da porta. Respeito a distância e o espaço, mas estou atenta.

Quinta-feira Santa. Ela emociona-se e diz que esteve calma, depois de seis anos sem pôr os pés numa igreja. Gostou, sentiu-se em paz. Diz que os seus problemas foram deixados à porta por um momento, que tudo parou. Há meses que toma medicamentos para conseguir dormir. Diz que respirou.

Sexta-feira Santa. Todas as notícias sobre os Cristos que continuam a ser crucificados todos os dias são pregadas na cruz. E a sua famosa pergunta “Onde está Deus?” é respondida e verifica-se que Deus está a sofrer ao lado de cada pessoa, e o que temos de perguntar é onde estão os homens e as mulheres de boa vontade para levar a carícia e a consolação de Deus àqueles que estão desesperados?

Ela sai desta celebração muito comovida, diz que sentiu que o que se passou na igreja “era verdade”... mas que precisa de tempo para digerir e compreender. Precisa de tanto tempo que não dá o salto para participar no sábado, na festa da Ressurreição.

Ela agradeceu-me por a ter convidado em mensagem do seu telemóvel. Diz que dorme melhor, que se sente melhor. Gostaria de pensar que a porta da reconciliação se está a abrir, e nesse caminho, nessa experiência, espero que ela encontre em breve o Ressuscitado que nunca nos abandona, que nos sustenta sempre, que nos ama loucamente.

Continuarei/continuaremos a acompanhar devagar e com atenção.

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