O lugar das mulheres na Igreja - texto de Maria d'Oliveira Martins

Este texto de Maria d'Oliveira Martins, professora associada na Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa, foi publicado no portal dos Jesuitas. Para o ler na íntegra - e, na pratica, à parte mais importante, pode-se clicar no link e aceder de imediato ao artigo de opiniãopontosj/o lugar das mulheres na igreja

Um dos méritos pelo qual será recordado o pontificado do Papa Francisco será o da abertura de uma cultura sinodal e de diálogo na Igreja. Ainda é cedo para fazer uma avaliação desta estratégia ou para conhecer os seus frutos, mas é tempo de mapear e avaliar uma das discussões mais relevantes promovida nesse contexto: a do lugar das mulheres na Igreja.

O Papa Francisco deu alguns passos concretos no sentido de uma maior igualdade. Primeiro, com a eliminação, em Janeiro de 2021, da expressão “do sexo masculino” do cânone 230 do Código de Direito Canónico, para pôr fim à discriminação em função do sexo no que toca ao acesso aos ministérios de leitor e acólito. E, depois, com a abertura da presidência dos Dicastérios e outros Organismos eclesiais às mulheres, em Março de 2022.

Não ficou por aí, todavia, tendo, entre dezembro de 2023 e junho de 2024, promovido ele próprio quatro encontros para discussão do papel da mulher na Igreja e da possibilidade de abertura do diaconado feminino. Estes encontros deram origem a quatro publicações, apenas a primeira com edição e tradução em português: Desmasculinizar a Igreja?. As restantes edições encontram-se disponíveis tão-só em língua italiana: Donne e Ministeri nella Chiesa Sinodale; Donne e Uomini: Questione di Culture; e Il Potere e la Vita (doravante estes serão identificados como livro I, II, III ou IV, respetivamente). [O livro «Mulheres e ministérios na Igreja sinodal» será lançado em português, no mês de maio, pelas Paulinas. No final de 2025, é esperada a publicação de um outro volume da série, cuja edição portuguesa se concluirá em 2026, com o último dos quatro livros. ]

A abertura deste diálogo pode não parecer um grande passo. Mas na verdade é. Sobretudo quando se tem em conta que este debate, tendo sido iniciado dentro da igreja no século XIX e retomado durante o Concílio Vaticano II, se encontrava encerrado por vontade expressa do Papa João Paulo II, tendo este introduzido normas no Código de Direito Canónico para aplicação de sanções para quem não aceitasse aquilo “que é proposto de maneira definitiva pelo magistério da Igreja em matéria de fé e costumes”.

Cada um dos livros acima identificados tem o prefácio do Papa Francisco, sendo interessante constatar a evolução do seu pensamento a este respeito. Se no primeiro deles, ainda que avançando com a expressão “desmasculinizar a Igreja”, se coloca numa postura de escuta e abertura atenta, no último deles, afirma com mais confiança: “estou agora mais convencido que o masculinismo é uma realidade contrária ao Evangelho” e “não creio que haja coisas que só possam ser feitas por homens ou por mulheres”.

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