No relato sobre a ascensão de Jesus, São Lucas anota que Ele
diz aos discípulos de forma categórica: permanecei na cidade. Refere-se à
cidade de Jerusalém. Parece que, após a morte de Jesus, os discípulos querem
partir para a sua terra, a Galileia, voltar ao que sempre foi, esquecer o
fracasso de Jesus, acreditar que o que aconteceu com Jesus foi um pesadelo.
Por isso, são intimados a permanecer na cidade até que o
Espírito marque os rumos a seguir. O mandato de permanecer na cidade supõe exercer
a cidadania na nova forma de uma vida crente em Jesus. Fé e cidadania devem
andar juntas. O Espírito toma a cidadania como mediação necessária. Não se pode
ser crente fora da cidadania.
Como podemos ser hoje cidadãos crentes?
- Cumprindo as nossas obrigações cívicas: fiscais, legais,
judiciais. Um cristão que não cumpre as suas obrigações cívicas contradiz a sua
fé com o seu antitestemunho.
- Cuidando da cidade: sentindo-a como algo e como a nossa
própria casa, tendo por ela o mesmo cuidado que temos pela nossa própria
habitação. E isto, até nos detalhes.
- Sendo bons vizinhos: algo nada desprezível, porque se trata
de ser bom (como Deus é bom) e ser vizinho (próximo como Deus na sua
encarnação). Não nos pareça exagerado: que o nosso comportamento com os
vizinhos é a linguagem de um estilo de fé.
Há alguns dias, o Papa Leão disse: «A falta de fé traz
muitas vezes consigo dramas como a perda do sentido da vida, o esquecimento da
misericórdia, a violação da dignidade humana nas suas formas mais dramáticas, a
crise da família e tantas outras feridas que causam não pouco sofrimento na
nossa sociedade». É possível que tudo isto seja verdade. Mas a causa destas
consequências negativas é também a falta de sentido cívico.
Talvez tenhamos chegado a acreditar que uma fé espiritual
era aquela que não tocava nem se manchava com as realidades terrenas. É um
equívoco: precisamente no terreno, na história humana, a nossa fé deve ganhar
rosto, singularmente na história dos seus sofrimentos.
Fidel Aizpurúa Donazar, em Fé Adulta
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