«A fé é uma variante do amor porque é uma adesão do coração. É difícil amar sem ver. É lógico que os discípulos se alegrem ao ver Jesus.»

«Os discípulos encheram-se de alegria ao ver o Senhor» (João 20, 19-23) na sua ressurreição.
 
A fé é uma variante do amor porque é uma adesão do coração. Assim, uma fé com baixos níveis de amor não deixa de ser uma fé fria e, em definitiva, uma fé fraca. Por isso a fé anseia por «ver» o Senhor. Já o dizia poeticamente São João da Cruz que «a doença do amor só se cura com a presença e a figura». É difícil amar sem ver. É lógico que os discípulos se alegrem ao ver Jesus.
 
Nós vemos Jesus no âmbito religioso: na hóstia consagrada, na custódia, nos crucifixos, nas imagens e quadros, nas orações, etc. Mas os discípulos veem Jesus naquele que se senta à mesa, naquele que os acompanha, naquele que os abençoa. Em definitiva, eles veem Jesus na vida.
 
Onde podemos ver hoje o Senhor se quisermos vê-lo além do âmbito religioso?
 
Nas muitas pessoas que fazem o bem: porque, sem dúvida, somos muito mais aqueles que queremos e fazemos o bem do que aqueles que fazem mal aos outros, por mais que os meios de comunicação nos martelem com notícias adversas.
 
Nas pessoas que não lucram quando fazem o bem: porque essa é a prova de fogo: se faz o bem sem pretender benefícios. Há muitas pessoas que vivem assim (o próprio Papa Francisco, tão lembrado, foi uma delas: chegou pobre a Roma e partiu igualmente pobre).
 
Naqueles que continuam a ser pessoas espirituais nesta sociedade consumista: porque talvez acreditemos que não há pessoas que busquem ansiosamente o rosto de Deus, mas há. São pessoas normais na sua vida e no seu trabalho, mas buscam Deus com determinação e amam-no de maneiras vivas.
 
O poeta alemão Rilke dizia que «a casa dos pobres é um sacrário». Diante do sacrário, ajoelhamos ou nos inclinamos porque revelamos nesse sacramento a presença de Jesus. E assim é. Mas talvez essa presença seja mais clara na casa dos pobres, no sofrimento dos doentes, na solidão dos idosos, no medo horrível de quem vive sob as bombas. Esses são os «santuários» onde se vê Jesus com mais clareza. Gaza é hoje para nós o grande «santuário» que temos diante de nós. Será que o vemos assim?
 
Às vezes, os jornais revelam-nos coisas que tomamos como certas, mas que ignoramos: quem atende o 112 quando ligamos em caso de necessidade? Quem está por trás do telefone da esperança? Quem prepara a comida nas cantinas sociais? Quem atende os migrantes que tentam regularizar a sua situação? Através deles, às vezes, os humildes recuperam a alegria. Aí continuamos a ver o Jesus ressuscitado que nos acompanha.
 
Fidel Aizpurúa, em Fé Adulta

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