«A fé é uma variante do amor porque é uma adesão do coração. É difícil amar sem ver. É lógico que os discípulos se alegrem ao ver Jesus.»
A fé é uma variante do amor porque é uma adesão do coração.
Assim, uma fé com baixos níveis de amor não deixa de ser uma fé fria e, em definitiva, uma fé fraca. Por
isso a fé anseia por «ver» o Senhor. Já o dizia poeticamente São João da Cruz
que «a doença do amor só se cura com a presença e a figura». É difícil amar sem
ver. É lógico que os discípulos se alegrem ao ver Jesus.
Nós vemos Jesus no âmbito religioso: na hóstia consagrada,
na custódia, nos crucifixos, nas imagens e quadros, nas orações, etc. Mas os
discípulos veem Jesus naquele que se senta à mesa, naquele que os acompanha,
naquele que os abençoa. Em definitiva, eles veem Jesus na vida.
Onde podemos ver hoje o Senhor se quisermos vê-lo além do
âmbito religioso?
Nas muitas pessoas que fazem o bem: porque, sem dúvida,
somos muito mais aqueles que queremos e fazemos o bem do que aqueles que fazem
mal aos outros, por mais que os meios de comunicação nos martelem com notícias
adversas.
Nas pessoas que não lucram quando fazem o bem: porque essa é
a prova de fogo: se faz o bem sem pretender benefícios. Há muitas pessoas que
vivem assim (o próprio Papa Francisco, tão lembrado, foi uma delas: chegou
pobre a Roma e partiu igualmente pobre).
Naqueles que continuam a ser pessoas espirituais nesta
sociedade consumista: porque talvez acreditemos que não há pessoas que busquem
ansiosamente o rosto de Deus, mas há. São pessoas normais na sua vida e no seu
trabalho, mas buscam Deus com determinação e amam-no de maneiras vivas.
O poeta alemão Rilke dizia que «a casa dos pobres é um sacrário».
Diante do sacrário, ajoelhamos ou nos inclinamos porque revelamos nesse
sacramento a presença de Jesus. E assim é. Mas talvez essa presença seja mais
clara na casa dos pobres, no sofrimento dos doentes, na solidão dos idosos, no
medo horrível de quem vive sob as bombas. Esses são os «santuários» onde se vê
Jesus com mais clareza. Gaza é hoje para nós o grande «santuário» que temos
diante de nós. Será que o vemos assim?
Às vezes, os jornais revelam-nos coisas que tomamos como
certas, mas que ignoramos: quem atende o 112 quando ligamos em caso de
necessidade? Quem está por trás do telefone da esperança? Quem prepara a comida
nas cantinas sociais? Quem atende os migrantes que tentam regularizar a sua
situação? Através deles, às vezes, os humildes recuperam a alegria. Aí
continuamos a ver o Jesus ressuscitado que nos acompanha.
Fidel Aizpurúa, em Fé Adulta
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