São João Baptista escreve ao Brácaro - Texto do padre João Torres, da paróquia de São Tiago de Priscos, diocese de Braga

Querido Brácaro,
Vim ver como andam as coisas por aí, pois ouvi dizer que em Braga me têm grande devoção. Gritam “Viva São João!” até às tantas, saltam fogueiras, dançam com martelinhos na mão e enchem-me de balões, de concertinas e de festa no terreiro que tem o meu nome. Pensei cá para mim: "Isto deve ser um povo santo, fervoroso, devoto. Vou espreitar."

Cheguei no dia da Procissão do Corpo de Deus. Uma tradição com séculos, uma herança espiritual riquíssima, uma manifestação de fé profunda. Jesus em pessoa, sob a forma de pão, a passar pelas ruas!
E agora… queres saber o que vi?

Copos. Copos de cerveja. Mais copos.
Risos. Gargalhadas. Conversas sobre futebol e sobre o preço das bifanas.
Gente de calção e chinelo, com o Santíssimo a passar a dois metros — e ninguém se levanta.
Esplanadas cheias. Guarda-sóis bem abertos. Os talheres a tilintar nos pratos.
E Jesus… a passar no meio disso tudo.

Silêncio? Não.
Olhares recolhidos? Nenhum.
Uma inclinação de cabeça, um sinal de respeito? Raro, raríssimo.
Antes, o ruído. A música. A distração.
Um altifalante berrava “ZUMBA BRAGA!” enquanto o Senhor dos Senhores percorria as ruas.

E eu...? Eu a ver tudo, com cara de quem comeu limão azedo com vinagre de figo.
(Detalhe: havia bandeiras de todas as paróquias do Arciprestado! Confrarias, estandartes, milhares de fiéis.)

E foi então que me doeu ver isto:
As ruas, preparadas com tanto esforço para receber o Rei dos Reis, foram transformadas em varandas para a indiferença.
O espaço que devia ser sagrado, tornou-se banal.

As pedras que há séculos sentem os passos dos peregrinos, hoje ouvem apenas gargalhadas e brindes.

As varandas onde se penduravam colchas bordadas… hoje exibem toalhas de praia.

Brácaro, onde está o respeito?
Não falo de formalidades, nem de véus na cabeça.
Falo de reconhecimento interior.
De alma ajoelhada, mesmo que o corpo esteja em pé.
De parar. Parar mesmo. Porque Deus está a passar.

Quando Jesus passa, não se continua a comer como se nada fosse.
Não se fala alto como se estivéssemos num arraial.
Não se age como se aquilo fosse um desfile qualquer.
O Céu toca a Terra — e ninguém mexe um dedo.

E o que sou eu nestas bandas? Uma mascote popular.
Sou voz que grita? Já não. Agora sou voz que “faz barulho de arraial”.

Mas eu não vim para isso.
Eu vim para apontar o caminho.
Eu vim para dizer: “Eis o Cordeiro de Deus!”

Ah, Braga, minha doce Braga,
não te esqueças que Jesus passou aí antes de mim.

E tu estavas a olhar para o lado.
Quando eu passar, vais parar tudo?
Vais arrumar as esplanadas e desligar o barulho?
Pois eu digo-te: não adianta aclamar o arauto e ignorar o Rei.
Fica o aviso (e o aviso sou eu):
Ele vai voltar a passar.
E não virá com fanfarra nem martelinhos de plástico.
Virá com olhos de quem vê tudo e coração de quem ama… mesmo assim.
Por isso, fecha o guarda-sol.
Larga o copo. Arruma as esplanadas.
E da próxima vez que Ele passar... olha!
Com os olhos.
Com a alma.
Com (ao menos) um pouco de respeito.

Assinado,
João, o que grita — ainda que ninguém o queira ouvir.»

Acerca do São João em Braga, consultarhttps://saojoaobraga.pt

Serão também sempre oportunas as palavras de D. Jorge Ortiga, arcebispo emérito de Braga, a 4 de janeiro de 2004, com o título
«O sentido cristão das festas religiosas», neste link:

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