E é. Mas também é um homem de silêncios longos, de noites em claro, de perguntas que ecoam entre os muros da casa paroquial ou da igreja.
Por entre a liturgia que eleva, os sacramentos que sustêm, e as obrigações administrativas que nunca acabam, há um coração que bate no meio de tudo — discreto, mas vivo. Há um cansaço que não se vê, uma solidão que se aprende a calar, uma lágrima que escorre quando ninguém mais olha.
Chora... Não só por fraqueza. Mas porque amar profundamente tem o seu preço.
Chora ainda que sem lágrimas derramaras por quem já não vem. Por quem apenas exige. Por quem olha, julga, mede e não percebe.
Chora porque nunca nada chega. Nunca o nosso todo é suficiente. Nunca nada está ou puderá estar bem.
Chora também pelos próprios erros, pelas palavras mal ditas, pelos gestos que falharam o alvo, pelos dias em que se quis dar mais — e não se conseguiu.
O padre não é um herói. Nem santo automático. É alguém que tenta. Tenta ser presença, escuta, ponte, bálsamo. Tenta ser resposta num mundo que já não faz muitas perguntas.
E às vezes, o peso é muito. Sobretudo quando todos esperam mais, mas quase ninguém pergunta: “Como estás?”
Há dias em que falta tudo. O tempo, a força, o brilho nos olhos, até a fé vacila, mesmo que discretamente. Mas que não falte a esperança.
Essa esperança teimosa, feita de pequenos milagres:
— o olhar puro de uma criança que sorri na catequese;
— a vela acesa por uma idosa que reza no silêncio da sua dor;
— o jovem que aparece e diz, sem grandes gestos: “Ouvi-te. Fez-me bem.”
Mesmo quando o mundo parece virar costas — com pressa, com ruído, com ironia — o padre continua.
Não por teimosia, mas por amor.
Não por obrigação, mas por fidelidade.
Não porque tudo está bem, mas porque ainda acredita que vale a pena.
Caros paroquianos, caros amigos: o padre também chora.
Chora porque sente. Porque ama. Porque se dá inteiro — mesmo partido.
E no fim de tudo, quando os bancos estiverem vazios e o incenso já tiver subido, o que fica não é o cansaço.
É a certeza de ter servido com amor.
Com verdade.
Com tudo o que tinha, mesmo quando é sempre tão … mas tão pouco.
António Martins, presbítero da diocese da Guarda
«Há orações que não precisamos de terminar… porque o choro vem antes. E Deus entende tudo, porque Ele lê lágrimas.»
(Desabafo de uma Alma Cansada)
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