A liberdade (de expressão) que mente

Toda a gente diz que defende a liberdade de expressão.
E talvez acredite nisso.

Mas é curioso como tantos dos que a proclamam parecem também saber exatamente como silenciar os outros - só não admitem.

Há quem diga tudo o que quer, mesmo quando isso fere. 
Outros calam os que não suportam ouvir. 

E depois há os que se escondem atrás da palavra “liberdade” como se fosse um escudo inquebrável, daqueles que se levantam quando já não há argumentos.

A liberdade de expressão, se formos honestos, anda a ser usada como desculpa.
Quando é verdadeira, é exigente. 
Pede coragem para dizer o que custa - e mais ainda para ouvir o que não nos convém.

Já reparaste? 
Os que mais a gritam são, muitas vezes, os que menos arriscam.
Os que realmente têm algo para dizer não anunciam direitos - falam, assumem, seguem.

Não se trata de ter o direito de ofender. 
Trata-se de saber aguentar quando somos ofendidos - e mesmo assim escolher não responder com mais dor.

Não é poder mentir. 
É ter a força de dizer o que incomoda, mesmo que nos vire o mundo do avesso.
E, às vezes, não é falar. 
É calar a tempo.

É estranho: nunca se publicou tanto, mas nunca foi tão difícil ser escutado.
Temos voz, temos palco, mas falta qualquer coisa que não se compra: silêncio interior.
Capacidade de escutar. 
Coragem de não dizer tudo.

Talvez o nosso erro tenha sido este: confundir liberdade com ausência de travões.
Pensámos que ser livre era poder tudo.
Esquecemo-nos de que, sem limite, tudo perde forma - até a palavra.

A verdadeira liberdade constrói-se nos gestos pequenos.
Está naquele momento em que se pensa antes de falar.
Ou naquele instante em que se diz o que não dá jeito nenhum, mas que tem de ser dito.

A liberdade de expressão não é um grito de guerra.
A liberdade de expressão não precisa de se anunciar em voz alta. 
Vive-se. 
Em pequenas escolhas, quase sempre invisíveis.
É uma prática constante.
Às vezes pública, outras no íntimo.
E quase sempre solitária.

Talvez seja por isso que tão poucos a pratiquem de verdade.
Porque é mais fácil gritar do que carregar a responsabilidade do que se diz.

Alberto Carvalho, escritor, no Facebook

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