Carta Aberta aos Mais Jovens, pela paz: «Vocês têm a capacidade de forjar uma nova Humanidade»

Para ti, jovem, que amas a vida
. Aceita estas palavras de um homem que percorreu o mundo sonhando e lutando por uma nova Humanidade de paz e fraternidade. Partilho contigo a minha visão do mundo em que vivemos.
 
Neste ano, 2025, comemoramos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, que deixou 60 milhões de mortos e um mundo cheio de dor e lágrimas. Comemoramos 80 anos do lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima e Nagasaki pelos Estados Unidos.
 
Após os horrores desta guerra, em 1948 foi criada a Organização das Nações Unidas com o objetivo de que nunca mais a guerra fosse utilizada como meio de resolução de conflitos. Em 10 de dezembro desse mesmo ano, a Assembleia das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esta Declaração significou um avanço para a Humanidade na construção de uma sociedade mais justa e livre de conflitos bélicos. Foi um acontecimento transcendental na tomada de consciência da fraternidade universal e da dignidade de todas as pessoas, independentemente da etnia, cultura, língua, nacionalidade, credo religioso, género ou condição social.
 
No entanto, hoje o planeta atravessa a maior crise global desde a Segunda Guerra Mundial, com um aumento dos conflitos armados: em 60 dos 193 Estados da Organização das Nações Unidas; em 2024, uma em cada oito pessoas estiveram expostas a conflitos armados e cerca de 223 000 pessoas foram mortas, de acordo com as estimativas da ONG Armed Conflict Location and Event Data (ACLED), ao aumento do armamento e ao risco de uma catástrofe nuclear global que colocaria em perigo a existência da vida no planeta.
 
Os senhores da guerra dos países poderosos têm o poder das armas e do dinheiro, mas falta-lhes a verdade. As pessoas simples, boas e nobres têm a força da razão, que é o amor, contra a razão da força dos poderosos.
 
Queridos jovens, sou testemunha, durante os meus anos de vida missionária, do imenso e doloroso sofrimento das guerras na América Central e no Médio Oriente. Em todas as guerras, os grandes vencedores são os fabricantes de armas. Todas as guerras têm uma causa comum: a ambição geopolítica e económica de controlar a riqueza do planeta. Os poderosos pretendem a paz aumentando o orçamento para armamento. Não acham que isso é um engano?
 
O oposto da paz é a guerra, mas também a injustiça social, o ódio, o rancor, a xenofobia, o racismo, a aversão a pessoas pobres ou desfavorecidas (aporofobia), a intolerância e o armamentismo.
 
A paz não é apenas a ausência de guerra. A paz é, acima de tudo, uma sociedade justa, fraterna, respeitosa da diversidade, dialogante e cuidadora da natureza. A paz é fruto da justiça, da solidariedade com a Humanidade sofredora e com todas as pessoas que fogem dos seus países por causa da fome e das guerras, como são os migrantes e os refugiados.
 
A paz é o respeito pela dignidade de todo ser humano, seja homem ou mulher, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, crente ou não crente ou de qualquer religião: cristã, muçulmana ou qualquer outra. É tomar consciência de que todos os seres humanos somos irmãos. Gritem alto: Não mais guerras! Não mais genocídios! Sim à paz! Sim à fraternidade humana!
 
A paz também é viver em harmonia com a Natureza, com as montanhas, os vales, os rios, os mares, os pássaros, os animais do campo...
 
A Terra e a Humanidade são inseparáveis, formam uma única entidade indivisível. Os seres humanos fazem parte da Terra. Somos Terra que sente, Terra que pensa, Terra que ama, Terra viva.
 
Muitos de vocês, jovens, sonham com um mundo verdadeiramente democrático, um mundo novo, mais humano, justo, livre, equitativo, onde os direitos humanos sejam respeitados e se desenvolva a cultura da Paz. Se os sonhos morrem, a esperança morre.
 
Vocês sonham com um planeta limpo. Hoje vivemos uma situação de crise climática. O ambiente está a ser poluído: ar, solos, rios e mares. Estamos a ultrapassar o recorde da temperatura mais alta no planeta e nas águas do mar, fenómeno que causa furacões. Se não houver mudanças profundas a nível mundial, vocês, jovens, vão passar por momentos muito difíceis. As alterações climáticas estão a acelerar e representam um grande desafio para vocês.
 
Chegámos a um ponto decisivo da evolução humana em que a única saída é a construção de uma nova Humanidade. O planeta Terra só tem remédio com uma civilização de solidariedade, justiça e fraternidade universal. Que todos os seres humanos tenham as suas necessidades básicas de alimentação, habitação, trabalho, salário digno, saúde, educação...
 
Para acabar com a pobreza e salvar o planeta, é preciso acabar com as grandes diferenças sociais que existem no mundo, com esse 1 % que possui quase tanta riqueza quanto 99 % dos habitantes da Terra (de acordo com dados da ONG Oxfam).
 
Sei que vocês, jovens, estão conscientes dessa realidade. Vocês têm a capacidade de forjar uma nova Humanidade. Para isso, é necessário ter uma personalidade forte e clareza de consciência. O sentido da vida não está no poder nem no dinheiro, mas no amor, na solidariedade, na ternura, na compaixão, que são uma força transformadora pessoal e social. Em vocês está a esperança de um mundo melhor do que aquele que nós, adultos, lhes deixámos. O futuro da Humanidade caminha para a fraternidade universal, que implica uma harmonia pessoal, familiar, comunitária e cósmica. Se não mudarmos de rumo, caminharemos para uma tragédia mundial, que será destruição e morte.
 
Levantem o olhar para além das fronteiras. Sejam corajosos e decididos, porque está em jogo o futuro de vocês e o das gerações vindouras. Precisamos de construir uma nova civilização capaz de garantir uma vida digna e feliz para todos os seres humanos num planeta com recursos limitados.
 
A esperança está em vocês. Chegou a hora. Por toda a Terra, surgem movimentos de jovens que buscam um estilo de vida mais participativo, livre, justo, equitativo, simples, aberto ao diálogo, solidário e compassivo tanto com o ser humano quanto com a natureza. É hora de sonhar com uma nova civilização, com a utopia de outro mundo possível, porque amamos a vida e amamos a Humanidade. É hora de romper fronteiras, abrir portas e janelas para os povos do mundo, com uma atitude de respeito e diálogo, sem complexos de superioridade ou inferioridade, livres de preconceitos e dependências alienantes, apostando na criação de homens e mulheres novos com profundidade ética e espiritual, para influenciar a mudança estrutural de que o mundo precisa.
 
O futuro está nas mãos de vocês. A esperança está numa juventude com consciência social, ecológica, espiritual e com capacidade de amar para além das diferenças políticas, culturais e religiosas.
 
Envio um abraço cordial e forte a cada um de vocês,
 
Fernando Bermúdez López, em Fé Adulta
ferbermudezlopez@gmail.com
teólogo missionário,
nascido em 1943, em Alguazas (Múrcia), Espanha,
defensor dos direitos humanos, membro da Amnistia Internacional, dos Comités de Solidariedade Óscar Romero, das Comunidades Cristãs de Base, da Comissão de Justiça e Paz e membro do movimento nacional pelo Diálogo Inter-religioso.

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