Proposta: dicas para fazer um retiro sobre a fraternidade na Igreja a partir do trecho do Evangelho de Jesus em casa de Marta e Maria, irmãs entre si e também de Lázaro
O lamento do cardeal Joseph Ratzinger
O volume 3 das Obras completas de Joseph Ratzinger contém uma série de trabalhos da juventude sobre a Igreja e a fraternidade. Num deles, o futuro papa lamentava a falta de fraternidade da igreja pós-constantiniana. Ratzinger dizia: «A Igreja como um todo já não se sente como uma fraternidade, mas constitui-se como um sistema hierárquico e escalonado de parentesco espiritual. Nessa linha, apenas os membros da hierarquia aparecem como irmãos, apropriando-se assim de uma dignidade que, em princípio, pertence a todos os crentes. Dessa forma, os bispos chamam-se “irmãos” entre si, enquanto concebem os restantes cristãos como “filhos espirituais”. Por seu lado, os monges dizem-se filhos do abade; o papa é visto como pai espiritual do imperador bizantino e, a partir de Carlos Magno, do imperador do Ocidente.»
Ratzinger continuava dizendo: «Restrição
da fraternidade. Ela se expressa e se confirma a partir do século III, de modo
que apenas os membros do clero ou de uma comunidade monástica são chamados de
irmãos. A consciência de fraternidade que a Igreja primitiva tinha, recua e
aplica-se apenas a uma elite da Igreja... Dessa forma, o resto dos fiéis
aparecem como cristãos inferiores, em frente aos membros do “estado superior da
Igreja”, que são os Padres bispos e os superiores da vida religiosa. Em resumo,
surgiu assim uma situação que, até o momento atual, não pôde ser superada.» (J.
Ratzinger, Fraternidade. Obras completas 3, BAC, Madrid 2014).
Evangelho de Jesus Cristo
segundo Lucas (Lucas 10, 38-42)
Naquele tempo, Jesus entrou numa aldeia e uma mulher chamada Marta recebeu-o em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra.
E Marta multiplicava-se para dar
conta do serviço, até que se levantou e disse: «Senhor, não te importas que a
minha irmã me tenha deixado sozinha com o serviço? Diz-lhe para me dar uma
ajuda».
Mas o Senhor respondeu-lhe:
«Marta, Marta, estás inquieta e nervosa com tantas coisas; só uma é necessária.
Maria escolheu a melhor parte, e ninguém lha tirará».
Uma casa de irmãs (Lucas 10,
38-42)
O Evangelista Mateus destaca a fraternidade da Igreja como família messiânica que resolve os seus problemas em comunhão, sem hierarquias superiores, em abertura aos necessitados.
Num sentido convergente, o evangelista Lucas desenvolve muitos textos sobre a fraternidade, tanto no seu Evangelho como nos Atos. Entre eles, gostaria de comentar um, que evoca o sentido e a tarefa de duas irmãs na Igreja.
Duas irmãs, uma casa: organizar
a irmandade
Caminhando com os seus discípulos, Jesus «entra numa aldeia e uma mulher chamada Marta recebe-O...».
Marta é uma pessoa concreta, mas,
ao mesmo tempo, é uma figura da comunidade, um sinal importante da Igreja ou do
grupo daqueles que acolhem Jesus na sua casa, na sua família. Diante de uma
aldeia dos samaritanos que não receberam Jesus (Lucas 9, 52-56) e ao contrário
das populações da Galileia que não o ouviram (10, 13-16), Lucas destaca o
exemplo de duas irmãs que o recebem:
‒ Marta tinha uma irmã, e a sua
relação com Jesus será matizada por ela, de modo que ambas aparecem ligadas (e
confrontadas) por causa de um homem ou de uma tarefa que devem realizar. Este
modelo de amigas-irmãs rivais teve uma importância especial na Bíblia Hebraica,
onde normalmente a causa principal do conflito entre elas não é a luta pelo
amor do homem (o facto de poderem partilhar o seu amor, num casamento
polígamo), mas sim pela descendência, pois só o filho/herdeiro oferece à mãe o
estatuto de senhora (gebîra), como aparece em toda a história hebraica.
– Podem ser irmãs no sentido
familiar de sangue (conforme João 11, onde têm um terceiro irmão chamado
Lázaro). Lendo o texto assim, podemos supor que Maria é mais nova. Ela não age
como «dona» da casa (não é ela quem recebe Jesus), embora possa desempenhar e
desempenhe uma função importante. Parece subordinada (é a irmã mais nova), mas
dá a impressão de que ocupa um lugar significativo na vida (e no coração) do
único homem da cena. É como se as duas mulheres disputassem a atenção de Jesus,
cada uma com o que sabe fazer (uma trabalhando para ele, outra ouvindo-o).
– É mais provável que sejam irmãs
no sentido eclesial, membros da família cristã.
Certamente, a palavra irmão tem às vezes um sentido literal em Lc-Atos
(cf. Lc 14, 26; 20, 28-29; At 12, 2; 23, 16), mas noutros casos também recebeu
um sentido mais amplo: são irmãos os membros do povo judeu (cf. At 7, 2.26; cf.
9, 17) e, de modo especial, os cristãos (cf. At 1, 15; 11, 29; 15, 3; 16, 2.40;
21, 7). Tudo nos permite supor que Marta e Maria são irmãs neste último sentido,
como crentes com uma responsabilidade especial na igreja. Dessa forma, a sua
relação ajuda-nos a compreender os elementos e os riscos da fraternidade na
família cristã.
A partir dessa perspetiva mais
ampla da fraternidade (sororidade), é possível ver melhor as funções que elas
desempenham. É normal que, no fundo, continue a existir o símbolo das irmãs
carnais confrontadas por um homem (namorado, amigo, marido). Mas o próprio
texto ajuda-nos a superar esse nível, como indicam as suas tarefas. Marta
desempenha uma função ativa, ao serviço da casa (comunidade); Maria é, antes,
uma discípula, sentada aos pés do Kyrios (10, 39), ouvindo diretamente a
sua palavra (contra o que supõe 1 Cor 14, 34-35; 1 Tim 2, 11-12). Jesus aparece
por sua vez como Kyrios, o que mostra que ele não é um puro homem
histórico, amigo ou marido discutido, mas o Senhor Pascal que está presente na
igreja que o escuta. Neste contexto, a Igreja é representada por duas irmãs,
amigas e confrontadas.
Irmãs em conflito na Bíblia
É significativo que Lucas recorra a este modelo de irmãs em conflito para ilustrar as tensões internas de uma família/igreja. O NT recolhe a memória de um confronto entre homens por causa dos primeiros lugares ou ministérios (cf. Lc 10, 46-48; At 6). Mas aqui estamos perante o sinal de uma dissensão entre irmãs dentro de uma família/comunidade (cf. no cap. 2, história de Jacob, cf. Gn 28-38):
– Agar e Sara. Elas aparecem
ligadas, em planos diferentes (uma serva, outra livre), ao mesmo marido
(Abraão), cuja favor querem obter, por meio de um filho que aparece como
princípio de dignidade e poder (e causa de discórdia), tanto para uma como para
a outra. Esta história foi «espiritualizada» pela tradição judaica e cristã,
que viu simbolizados na escrava e na livre dois momentos ou formas da ação de
Deus (cf. Gal 4, 21-5,1), mas sabendo que no fundo há uma disputa familiar.
– Lia e Raquel. O mesmo tema das
duas mulheres em torno de um homem reaparece na história de Jacob, com a
particularidade de que aqui as duas irmãs são livres e enfrentam-se entre si
(elas e a serva de cada uma) disputando não só pelos filhos, mas também pelo
amor do mesmo homem. Essa história mostra-nos o risco de luta e rutura entre
irmãs numa família ou comunidade.
‒ Caim e Abel. Assim que Lucas
diz que Marta tinha uma irmã, podemos esperar um conflito (como em Gn 4, cf.
cap. 1). É normal que elas se enfrentem, mas sem que uma mate a outra. Em
princípio, o texto apresentou Marta como uma figura positiva, símbolo da
igreja. Mas a partir daqui destaca a figura de sua irmã Maria, que também tem
uma função importante na família-igreja.
As leituras que o judaísmo e o cristianismo fizeram do lugar da mulher e do homem no mundo e na assembleia dos crentes
Dentro do judaísmo é raro encontrar mulheres «discípulas»; o facto de ouvir e estudar a Lei não parece ser próprio delas. Também a igreja primitiva tendia a dar o monopólio da Palavra aos homens. Esta passagem coloca-nos diante de uma mulher que «ouve», ou seja, que recebe e acolhe a palavra. A partir desse contexto, compreende-se a intervenção de Marta, que toma a iniciativa e se queixa a Jesus, dizendo que está cansada porque a sua irmã a deixou sozinha com o «trabalho». Evidentemente, num certo sentido, ela tem razão: a tarefa poderia e deveria ter sido dividida (e talvez o Senhor devesse acompanhá-las, varrendo, esfregando ou cozinhando comida...). Se ela, Marta, está dividida e distraída, é por culpa da sua irmã, concentrada na «palavra».
– Maria abandonou um tipo de
trabalho para ouvir Jesus, aparecendo assim como uma «desertora» de algumas
funções de serviço que parecem próprias das mulheres. Em sentido geral, podemos
pensar que a sua atitude é positiva: é uma mulher liberta que pode dedicar-se
ao cultivo da Palavra, ouvindo Jesus. Mas isso significa que o peso das funções
e dos serviços (sociais, familiares) recai sobre os ombros da sua irmã. Parece
que Maria escuta a Palavra às custas de Marta.
– Marta se esforça... porque a
deixaram sozinha... A vinda de Jesus tornou-se para ela motivo de um serviço
que a cansa... Muitos entenderam esse serviço como assistência doméstica:
limpar, cozinhar, servir à mesa... Mas o sentido principal de servir (diakonein,
diakonía) no NT e sobretudo em Lucas (Lc-Atos) não é servir à mesa como faz
um criado/a, mas realizar uma tarefa ministerial ao serviço da Igreja (de
Jesus, da sua comunidade/família).
Em primeiro lugar, esta passagem
costuma ser aplicada apenas às mulheres. Os homens ficam de fora, embora
representados em fundo por Jesus-Homem (como suporia Ef 5). Nessa linha,
poderíamos falar de dois tipos de mulheres-irmãs.
a) Marta, trabalhadora, a serviço das coisas dos homens (especialmente dos homens), como «empregada doméstica», enquanto os homens (como Jesus) vão e vêm. É normal que ela se canse e proteste contra a outra irmã...
b) Maria, a ouvinte, ao
serviço das coisas de Deus, de modo que Jesus aparece diante dela como fonte de
libertação: oferece-lhe uma palavra interior que ela recebe e cultiva, não para
se dedicar à pura contemplação, mas para ser ela mesma e viver com autonomia.
Esta divisão coloca-nos diante do
tema da distinção e complementaridade das funções na família e na sociedade.
Normalmente, os exegetas católicos atribuíram a Marta (mulher sem palavra) o
cuidado do marido e dos filhos, considerando-a como serva ou criada da família.
Por sua vez, Maria (mulher que escuta) seria a contemplativa celibatária dedicada às coisas de Deus. Mas o tema é complexo e obriga-nos a pensar nas funções sociais, distinguidas desde a antiguidade.
Para os homens, haveria três
funções básicas:
a) Os sacerdotes e/ou sábios mantêm a ordem sacral (brâmanes, clérigos, monges e letrados).
b) Os guerreiros e/ou nobres sustentam a ordem social como soldados e governantes.
c) Os trabalhadores-operários produzem bens de consumo e realizam as funções domésticas.
Parece que a nossa passagem, vista do ponto de vista das mulheres, só conhece duas funções: a de Maria, contemplativa-sábia (na linha dos sacerdotes); a de Marta, a trabalhadora. Significativamente, falta a mulher guerreira, da classe dos soldados/governantes. Seja como for, estas duas mulheres representam o conjunto da Igreja, como em Atos 6, onde há apóstolos contemplativos e diáconos servidores. E o que Atos 6 apresenta como disputa entre homens é apresentado aqui (Lc 10) como divisão entre irmãs, que desempenham as funções básicas da Igreja.
Uma resposta: casa de todas as
irmãs
Embora as funções dos protagonistas não sejam as mesmas, parece claro que as mulheres de Lc 10 são sinal de toda a Igreja, como um espelho onde se refletem o sentido e os problemas dos ministérios da comunidade. O que Atos 6 apresenta de forma masculina (doze hebreus, sete helenistas) pode ser reinterpretado aqui a partir do simbolismo das duas mulheres «irmãs», que são toda a família da Igreja. Assim podemos entender a resposta de Jesus a Marta:
– Marta, Marta, estás preocupada
e perturbada por muitas coisas. Ela queria que Jesus intercedesse por Maria,
para que a ajudasse na sua tarefa. Jesus responde de maneira inversa e, em vez
de confrontar Maria, repreende de alguma forma Marta, pois não é bom que ela se
preocupe tanto com o seu trabalho. Ele não a rejeita, não condena o seu
«ministério», mas lembra-lhe o risco de dispersão em que ela se encontra: o seu
zelo pelo serviço (organização eclesial) pode separá-la da raiz da Palavra, da
fonte do Senhor, pois no fundo da sua própria diaconia eclesial (ou familiar)
pode esconder-se um tipo de preocupação que acaba por ser destrutiva (como dirá
noutra linha o cântico de 1 Cor 13, de que trata a próxima secção)
– Uma (única) é necessária.
Diante das muitas coisas que perturbam Marta, Jesus destaca aquela (única) que
é necessária, e que se situa na linha da busca do reino (Lc 12, 31; Mt 6, 33).
Segundo Lc 18, 22, essa única coisa (ligada ao único Deus do shema: Dt
6, 4-5), necessária para alcançar a vida eterna, consiste em vender tudo, dar
aos pobres e seguir Jesus. A nossa passagem pressupõe que Maria escolheu a
melhor parte: ela quis colocar-se aos pés de Jesus, para ouvir a palavra e
cumpri-la de forma radical, em linha com o Reino de Deus.
Essa boa parte (Lc 10, 42) de
Maria é o que importa. Não lhe foi imposta, pois ela não é uma escrava
submissa, que deve obedecer, fazendo simplesmente o que lhe ordenam, mas
escolheu (exelexato) por si mesma o que quer. Ela não está condenada
como mulher ao serviço que os homens lhe impõem, não é uma escrava do sistema,
mas fez uma escolha, escolheu um caminho pessoal para se ligar a Jesus, que é
sinal da parte boa.
Frente à mulher que pode ficar
escravizada pelas suas obras de serviço (Marta), Jesus destaca a mulher-pessoa,
cuja primeira dignidade e função é a palavra (Maria).
A família também implica
trabalho, mas o puro trabalho fechado, por obrigação, cria escravos, não
irmãos, nem amigos. Antes de ser um local de ocupações, a casa/família é o lar
da palavra. Essa é a parte boa de Maria, que não lhe será tirada.
Parece que Marta queria «afastar»
Maria dessa tranquilidade, para encerrá-la nas preocupações e cuidados da muita
diaconia. Jesus opõe-se, ratificando a escolha de Maria e prometendo-lhe que
nada (ninguém) poderá arrebatá-la... Ao dizer que não lhe será tirada, o texto
parece evocar um risco, indicando que dentro da igreja há pessoas que querem
tirar de Maria essa liberdade de escolha, essa capacidade de ouvir a palavra,
com tudo o que isso significa (autonomia no pensamento e na vida, capacidade de
decisão, etc.) e, acima de tudo, contacto pessoal, não simples conversa fiada. Contra
esse risco, Jesus ratifica a opção e o programa de Maria, endossando a função
de cada uma das duas irmãs que são (representam) toda a família da igreja,
interpretada e condensada nelas.
Lucas simbolizou assim, nas duas irmãs, a vida da Igreja e da humanidade que acolhe Jesus. Elas, as duas irmãs, são o sinal da Igreja, entendida como «casa fraterna», uma família onde se liga o serviço e a escuta da Palavra.
Risco de estreitar a
fraternidade
Marta representa a diaconia da Igreja, na linha da ajuda mútua e da celebração; não é uma mera serva sob o domínio de outros, mas anfitriã da Igreja. Mas nessa função pode esconder-se um perigo: o puro ativismo, a preocupação sem amor, uma atividade desumanizada.
A irmã Maria escuta a palavra,
mas não para depois ficar calada, em mística passiva, mas para cumprir e
expandir o que ouviu, de acordo com todo o contexto de Lucas (cf. Lc 8, 21).
Entendido assim, este trecho é
uma parábola da família da Igreja, condensada em duas irmãs. Nessa linha, no
início, todos os cristãos se consideravam simplesmente irmãos e irmãs, sem
hierarquia ou superioridade uns sobre os outros. Mas mais tarde, essa experiência
de fraternidade estreitou-se e aplicou-se de forma ideal entre alguns grupos
especiais de crentes, como salientou J. Ratzinger.
O volume 3 das Obras completas de Joseph Ratzinger contém uma série de trabalhos da juventude sobre a Igreja e a fraternidade. Num deles, o futuro papa lamentava a falta de fraternidade da igreja pós-constantiniana. Ratzinger dizia: «A Igreja como um todo já não se sente como uma fraternidade, mas constitui-se como um sistema hierárquico e escalonado de parentesco espiritual. Nessa linha, apenas os membros da hierarquia aparecem como irmãos, apropriando-se assim de uma dignidade que, em princípio, pertence a todos os crentes. Dessa forma, os bispos chamam-se “irmãos” entre si, enquanto concebem os restantes cristãos como “filhos espirituais”. Por seu lado, os monges dizem-se filhos do abade; o papa é visto como pai espiritual do imperador bizantino e, a partir de Carlos Magno, do imperador do Ocidente.»
Naquele tempo, Jesus entrou numa aldeia e uma mulher chamada Marta recebeu-o em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra.
O Evangelista Mateus destaca a fraternidade da Igreja como família messiânica que resolve os seus problemas em comunhão, sem hierarquias superiores, em abertura aos necessitados.
Num sentido convergente, o evangelista Lucas desenvolve muitos textos sobre a fraternidade, tanto no seu Evangelho como nos Atos. Entre eles, gostaria de comentar um, que evoca o sentido e a tarefa de duas irmãs na Igreja.
Caminhando com os seus discípulos, Jesus «entra numa aldeia e uma mulher chamada Marta recebe-O...».
É significativo que Lucas recorra a este modelo de irmãs em conflito para ilustrar as tensões internas de uma família/igreja. O NT recolhe a memória de um confronto entre homens por causa dos primeiros lugares ou ministérios (cf. Lc 10, 46-48; At 6). Mas aqui estamos perante o sinal de uma dissensão entre irmãs dentro de uma família/comunidade (cf. no cap. 2, história de Jacob, cf. Gn 28-38):
Dentro do judaísmo é raro encontrar mulheres «discípulas»; o facto de ouvir e estudar a Lei não parece ser próprio delas. Também a igreja primitiva tendia a dar o monopólio da Palavra aos homens. Esta passagem coloca-nos diante de uma mulher que «ouve», ou seja, que recebe e acolhe a palavra. A partir desse contexto, compreende-se a intervenção de Marta, que toma a iniciativa e se queixa a Jesus, dizendo que está cansada porque a sua irmã a deixou sozinha com o «trabalho». Evidentemente, num certo sentido, ela tem razão: a tarefa poderia e deveria ter sido dividida (e talvez o Senhor devesse acompanhá-las, varrendo, esfregando ou cozinhando comida...). Se ela, Marta, está dividida e distraída, é por culpa da sua irmã, concentrada na «palavra».
a) Marta, trabalhadora, a serviço das coisas dos homens (especialmente dos homens), como «empregada doméstica», enquanto os homens (como Jesus) vão e vêm. É normal que ela se canse e proteste contra a outra irmã...
Por sua vez, Maria (mulher que escuta) seria a contemplativa celibatária dedicada às coisas de Deus. Mas o tema é complexo e obriga-nos a pensar nas funções sociais, distinguidas desde a antiguidade.
a) Os sacerdotes e/ou sábios mantêm a ordem sacral (brâmanes, clérigos, monges e letrados).
b) Os guerreiros e/ou nobres sustentam a ordem social como soldados e governantes.
c) Os trabalhadores-operários produzem bens de consumo e realizam as funções domésticas.
Parece que a nossa passagem, vista do ponto de vista das mulheres, só conhece duas funções: a de Maria, contemplativa-sábia (na linha dos sacerdotes); a de Marta, a trabalhadora. Significativamente, falta a mulher guerreira, da classe dos soldados/governantes. Seja como for, estas duas mulheres representam o conjunto da Igreja, como em Atos 6, onde há apóstolos contemplativos e diáconos servidores. E o que Atos 6 apresenta como disputa entre homens é apresentado aqui (Lc 10) como divisão entre irmãs, que desempenham as funções básicas da Igreja.
Embora as funções dos protagonistas não sejam as mesmas, parece claro que as mulheres de Lc 10 são sinal de toda a Igreja, como um espelho onde se refletem o sentido e os problemas dos ministérios da comunidade. O que Atos 6 apresenta de forma masculina (doze hebreus, sete helenistas) pode ser reinterpretado aqui a partir do simbolismo das duas mulheres «irmãs», que são toda a família da Igreja. Assim podemos entender a resposta de Jesus a Marta:
Lucas simbolizou assim, nas duas irmãs, a vida da Igreja e da humanidade que acolhe Jesus. Elas, as duas irmãs, são o sinal da Igreja, entendida como «casa fraterna», uma família onde se liga o serviço e a escuta da Palavra.
Marta representa a diaconia da Igreja, na linha da ajuda mútua e da celebração; não é uma mera serva sob o domínio de outros, mas anfitriã da Igreja. Mas nessa função pode esconder-se um perigo: o puro ativismo, a preocupação sem amor, uma atividade desumanizada.
Xabier Pikaza, em Religión Digital
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