«Se não nos aproximamos de quem precisa de nós, estamos a afastar-nos de Deus» - vários ensinamentos da parábola do Bom Samaritano

Apenas Lucas narra a parábola do «bom samaritano»: ler 
Lc 10, 25-37.

Como todas, esta parábola não precisa de explicação; exige implicação. O ouvinte tem de tomar partido depois de a ouvir. Se não o fizer, a narração não faz sentido.

Nesta parábola, Jesus convida-nos a descobrir uma nova maneira de ser religiosos, sendo mais humanos. A relação direta com Deus é impossível e enganadora.
 
Pergunta armadilhada
A pergunta que fazem a Jesus, «Quem é o meu próximo?», pressupõe que pode haver alguém que não o seja e que só se deve amar aquele que o é. A pergunta pressupõe que ser ou não ser próximo depende de alguma circunstância externa. Esta é a armadilha. Devo aproximar-me de todos aqueles que precisam de mim. Se não o fizer, estou a falhar a Deus e ao meu próprio ser.

«O Deus de Jesus é o que descubro em mim, e é o mesmo que devo descobrir nos outros.»
Na história, para o sacerdote e o levita, o primeiro é Deus e a Lei. Para o samaritano, o primeiro é o seu semelhante, porque leva Deus e a lei no coração.
 
Desde que temos notícias, Deus tem sido entendido como um Ser separado com o qual podemos nos relacionar diretamente. Esse Deus impõe a sua santa vontade às criaturas, dando leis e preceitos pontuais. Mas a verdade é que Deus não tem vontade. Esse deus antropomórfico é apenas uma criação nossa.
 
Ora, o Deus de Jesus é o que descubro em mim, e é o mesmo que devo descobrir nos outros. Se eu perceber o que sou no Todo, verei o outro inserido no Todo. Se eu acreditar que sou uma mónada isolada, verei o outro como oposto a mim e não encontrarei motivos para amá-lo.
 
Eu, separado do criador e das outras criaturas, não sou nada
O que constitui o meu ser e o que constitui o ser dos outros é a mesma Realidade, Deus, que está a fundamentar o meu próprio ser e o dos outros. Portanto, não posso ir contra os outros sem ir contra mim mesmo. No dia em que descobrir o que sou, terei dado um passo em direção ao verdadeiro amor.
 
O próximo está sempre presente. Descobri-lo depende apenas de si. Quando se aproxima de outra pessoa para ajudá-la, torna-a próxima. Ao tornar alguém próximo, está a aproximar-se de Deus. Cada vez que coloca o outro no centro, aproxima-se da plenitude da humanidade.
 
Sempre que fazemos um desvio para passar ao lado da dor alheia, estamos a afastar-nos de nós mesmos e de Deus. A religião que permite viver ignorando os outros será sempre falsa.
 
Fray Marcos, em Fé Adulta

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