4 de agosto, festa de São João Maria Vianney, Cura da aldeia de Ars, na França, é o Dia do Padre. Uma reflexão sobre o seu porquê

O dia 4 de agosto, festa de São João Maria Vianney, Cura da aldeia de Ars, na França, é o Dia do Padre. Porquê? Porque a sua vida de pastor fez dele, em pleno século
xix, um exemplo palpável da preferência de Deus pelos pequenos. De facto, João Maria Vianney não aparentava possuir as qualidades que habitualmente se requer de um futuro presbítero: ele aprendeu a ler tardiamente, aos 18 anos; teve enormes dificuldades para estudar, para dominar a língua latina e a Filosofia (naquela época os seminaristas deviam demonstrar proficiência nessas disciplinas). Percebendo-o mais carismático que estudioso, o bispo praticamente o ordenou por piedade, mas sem depositar muita fé nele.
 
Tratava-se, porém, de um dos raros casos de "enganos criativos" da História da Igreja: posto ao trabalho, o modestíssimo presbítero revela-se um campeão da fé, devorado pelo atendimento às pessoas que lhe foram confiadas (chegava a passar 18 horas por dia no confessionário), infatigável nas orações, que prolongava até à madrugada. Os seus biógrafos registaram a austeridade de vida com que se armava para enfrentar as investidas demoníacas. Venceu o mal com o bem.

«Eu vos darei eloquência e sabedoria...» (Lucas 21, 15)
A pequenina Ars, de pouco mais de 200 habitantes, passou a acolher cerca de 300 visitantes diários, sequiosos de receber a sábia e clemente orientação do Cura. Cumpria-se na sua pessoa e na sua missão as palavras de Jesus aos discípulos, no evangelho de Lucas (21,15): «Eu vos darei eloquência e sabedoria, às quais nenhum de vossos adversários poderá resistir nem vos contradizer.»

A vida do Cura d'Ars, canonizado em 1925, mostra claramente o que Jesus e a Igreja desejam dos seus sacerdotes ministeriais. Não espera deles criaturas excecionais – embora a História da Igreja registe elevadíssimo número desses casos – mas homens totalmente entregues ao desígnio do Pai.
 
A Igreja prepara os presbíteros da melhor forma possível. Atualmente, por exemplo, ela esmera-se com muito rigor para que eles sejam humanamente bem formados, mas, sobretudo, para que neles as pessoas e as comunidades encontrem o que realmente desejam e precisam: testemunhas hábeis e santas de Jesus Cristo, Pessoa e Palavra de Deus, fiéis distribuidores dos dons indispensáveis que a Igreja oferece em nome de Cristo – os sacramentos –, confiantes e desprendidos orientadores segundo a ética e a moral evangélicas, e zelosos administradores pastorais para que ninguém do povo seja excluído pelas injustiças sociais.
 
Tarefa fácil? Não, muito difícil.
Podem realizá-la sozinhos? Claro que não: precisam do apoio organizado dos leigos e leigas, dos seus próprios irmãos sacerdotes e religiosos, do paternal estímulo dos bispos. Precisam do apoio que vem do exemplar convívio com os Santos e da proteção maternal da Virgem Maria, que os conduz a Cristo: «Fazei tudo o que Ele vos disser» (Jo 2, 5).
 
São homens perfeitos? Ninguém é perfeito, a nossa consciência nos revela que somos todos pecadores, mas faz parte da nossa vocação almejarmos à perfeição do Pai Celestial: «Sereis perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito» (Mt 5, 47).

«Homens de muita fé e amor a Deus e ao povo» 
Tenho encontrado e convivido com presbíteros comparáveis nada menos que aos Apóstolos de Jesus, a João Crisóstomo e Agostinho, a Francisco de Assis, Vicente de Paulo, ao Cura d'Ars... Homens de muita fé e amor a Deus e ao povo, impregnados de profunda pobreza evangélica e vida de oração. Não são exceções. Basta procurá-los, conhecê-los de perto, e os encontraremos, às vezes até mergulhados em grandes dificuldades, mas invariavelmente apaixonados por Deus, pela Igreja, pelas famílias, pelo povo. Antes de ser mérito deles, é uma graça que Deus lhes dá.
 
É possível que alguém me aponte alguns padres medíocres, ou até criminosos, e a imprensa, às vezes até injustamente, se apressa em divulgar os seus nomes e as suas ações. Sou da opinião que devemos – todos – ser extremamente exigentes para com os nossos presbíteros, mas uma exigência compartilhada e que esteja à altura da missão que lhes é própria. Não como críticos de fora da Igreja, pois isso seria muito cómodo e medíocre, mas como
 
Domingos Zamagna, jornalista e professor de Filosofia, em Adital

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