A armadilha do eu ideal ou quando fazemos as coisas "para ficar bem" aos olhos dos outros

Quando Jesus nos diz para não ocupar "os primeiros lugares" – ler Evangelho de Lucas 14, 1-14 – somos tentados a montar uma armadilha subtil: fazemos algo para "parecer bem", falseamos a nossa humildade.

Quando queremos mostrar um "eu ideal", por trás há uma "perfeição" de fachada, que esconde falsidade e cai nos braços da hipocrisia ou "falsa humildade". Colocar-se no último lugar a fim de parecer bem não é humildade.
 
Há um mecanismo humano por trás dessa atitude: a partir de sua própria necessidade de se sentir reconhecida, a criança é obrigada, desde cedo, a dar uma imagem de si mesma que seja "aceitável" para os outros. O que a levará, inevitavelmente, a criar a sua própria sombra na qual, muitas vezes de forma inconsciente, quer ocultar aqueles aspetos de si mesma que não têm lugar na imagem que tenta oferecer.
 
Esse mecanismo inicial é tão poderoso que pode continuar a imperar ao longo de toda a vida, de modo que, em tudo o que fazemos, procuramos – de maneira automática – “parecer bem”, “agradar”, “ser bem vistos”, a fim de obter o reconhecimento almejado.
 
Porém, isso é uma tarefa árdua, cansativa e desgastante. Porque o desejo de oferecer uma imagem idealizada se baseia na mentira sobre nós mesmos e exige um enorme desperdício de energia para sustentá-la. Não é por acaso que a distância que mantemos entre nosso eu real e o ideal é fonte de neuroses.
 
Desativar a armadilha do eu ideal requer – como sempre que queremos sair de qualquer armadilha – amar a verdade acima de qualquer outro interesse. E será a própria verdade, reconhecida e aceite, que, descendo de qualquer pedestal ideal – falso, arrogante, hipócrita e sempre egoísta –, nos reconcilia com a nossa humanidade, pelo caminho da humildade.

Enrique Martínez Lozano, em Fé Adulta

Comentários