A oitava bem-aventurança dita por Jesus: vive, dá-te grátis - «Serás feliz por eles não terem com que retribuir-te» (Lucas 14, 14)
Há uma «bem-aventurança» de Jesus que nós, cristãos, temos ignorado: «Quando fizerdes um banquete, convidai os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Bem-aventurado és tu se eles não te podem pagar.» Na realidade, é difícil para nós compreender estas palavras, porque a linguagem da gratuidade é estranha e incompreensível para nós.
Na nossa «civilização da posse», não há quase nada gratuito. Tudo se troca, empresta, se deve ou exige. Ninguém acredita que «é melhor dar do que receber». Só sabemos prestar serviços remunerados e «cobrar juros» por tudo o que fazemos ao longo dos dias.
No entanto, os momentos mais intensos e culminantes da vida são aqueles em que sabemos viver a gratuitidade. Só na entrega desinteressada se pode saborear o verdadeiro amor, a alegria, a solidariedade, a confiança mútua. Gregório Nazianzeno diz que «Deus fez do homem o cantor do seu esplendor», e certamente, nunca o homem é tão grande como quando sabe irradiar amor gratuito e desinteressado.
Não poderíamos ser mais generosos com aqueles que nunca serão capazes de nos devolver o que fazemos por eles? Não poderíamos aproximar-nos daqueles que vivem sozinhos e desamparados, pensando apenas no seu bem? Viveremos sempre em busca dos nossos próprios interesses?
Habituados a correr atrás de todo o tipo de prazeres e satisfações, atrever-nos-emos a saborear a felicidade escondida, mas autêntica, que se encerra na entrega gratuita a quem precisa de nós? Aquele fiel seguidor de Jesus que foi Charles Péguy vivia convencido de que, na vida, «o que perde, ganha».
José Antonio Pagola, em Grupos de Jesus
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