Aprendendo a orar com Jesus

Em Lucas 11, 1-13, Jesus incentiva-nos a falar com Deus.

Diante de uma pessoa importante, é fácil ficar sem palavras, sem saber o que dizer. Muito mais diante de Deus. Talvez por isso os discípulos não rezem. Mas eles ficam curiosos ao ver Jesus a orar. O que diz Ele? Porque não os ensina a falar com Deus?
 
A oração que Jesus ensina, o Pai-Nosso, é a síntese de tudo o que Ele viveu e sentiu a respeito de Deus, do mundo e dos seus discípulos. Em torno destes temas giram as petições (sejam sete, como em Mateus, ou cinco, como em Lucas).

As petições do Pai Nosso 
Perante um mundo que prescinde de Deus, O ignora ou até O ofende, Jesus propõe como primeira petição, como ideal supremo do discípulo, o desejo da glória de Deus: «santificado seja o teu nome»; dito com palavras mais claras: «Proclame-se que Tu és santo».
 
Perante um mundo onde frequentemente predominam o ódio, a violência, a crueldade, que muitas vezes nos desencanta com as suas injustiças, Jesus pede que se instaure o Reino de Deus, o Reino da justiça, do amor e da paz. Ele recolhe nesta petição o tema-chave da sua mensagem («o Reino de Deus está próximo»), no qual tantos contemporâneos concentravam a felicidade suprema e todas as suas esperanças.
 
Como terceiro centro de interesse aparece a comunidade. Esse pequeno grupo de seguidores de Jesus, que precisa dia após dia do pão, do perdão, da ajuda de Deus para se manter firme. Pedidos que podemos fazer com sentido individual, mas que são concebidos por Jesus de forma comunitária, e é assim que adquirem toda a sua riqueza.
Quando imaginamos esse pequeno grupo em torno de Jesus percorrendo zonas pouco povoadas e pobres, compreendemos sem dificuldade esse pedido ao Pai para que lhe dê «o pão nosso de cada dia».
 
Quando nos lembramos das falhas dos discípulos, da sua incapacidade de compreender Jesus, das suas invejas e desconfianças, a petição «perdoa as nossas ofensas» adquire todo o sentido.
 
E pensando nesse grupo que teve de suportar o grande escândalo da morte e da rejeição do Messias, a oposição das autoridades religiosas, compreende-se que peça «não nos deixes cair em tentação».
 
O Pai Nosso ensina-nos que a oração cristã deve ter estas características:
- Ampla, porque não podemos limitar-nos aos nossos problemas; o primeiro centro de interesse deve ser o triunfo de Deus;
 
- Profunda, porque ao apresentar os nossos problemas não podemos ficar no superficial e no urgente: o pão é importante, mas também o perdão, a força para viver cristãmente, ver-nos livres de toda a escravidão.
 
- Íntima, num ambiente confiante e filial, já que nos dirigimos a Deus como «Pai».
 
- Comunitária. «Pai nosso», dá-nos, perdoa-nos, etc.
 
- Disposta ao perdão.
 
- Insistente (Lucas 11, 5-13)
Na verdade, não seria necessário ser tão insistente, porque Deus, como pai, está sempre disposto a dar coisas boas aos seus filhos.

É aqui que Lucas introduz um detalhe essencial. As palavras tão conhecidas «Pedi e vos será dado, buscai e encontrareis, batei e vos será aberto...» prestam-se a ser mal interpretadas. Como se Deus estivesse disposto a dar tudo o que Lhe fosse pedido, desde um emprego até à saúde, passando pela aprovação num exame. Esta interpretação provocou muitas crises de fé e a consciência diluída de que a oração não serve para nada.

O evangelho de Mateus 6, que recolhe as mesmas palavras, termina dizendo que Deus «dará coisas boas àqueles que lhas pedirem». A oração de Jesus no horto dos olivais demonstra que Deus tem uma ideia muito diferente da nossa, e até da de Jesus, sobre o que é bom e o que mais nos convém.

Mas as palavras do evangelho de Mateus não são claras para Lucas, que oferece uma versão diferente: «O vosso Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que o pedirem». Para Lucas, tanto no evangelho como no livro dos Atos, o Espírito Santo é o grande motor da vida da Igreja. No meio das dificuldades, mesmo nos momentos mais difíceis da vida, a oração insistente fará com que percebamos e ouçamos como Deus nos dá a força, a luz e a alegria do seu Espírito.
 
José Luis Sicre, em Fé Adulta

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