Colocar-me no último lugar e convidar aqueles que não podem pagar-me? Comentário a Lucas 14, 1-14

No Evangelho de Lucas 14, 1-14, Jesus está na casa de um fariseu «importante» que o convidou para comer e os demais fariseus estão a «espiá-lo». Ou seja, ele sabe que seus gestos e palavras serão analisados e julgados minuciosamente, e que alimentarão a polêmica.
 
Perante o comportamento que observa, Jesus conta uma parábola. Sob a imagem do banquete, tão repetida nos evangelhos, Jesus fala-nos das nossas atitudes na vida: que posição ou lugar procuramos? Que posição achamos que merecemos ou que nos corresponde? Que lugar queremos que os outros nos reconheçam na família, no trabalho, entre os amigos...? Atitude que também responde à imagem que temos de nós mesmos, à forma como nos julgamos e como julgamos os outros.
 
«Vai sentar-te no último lugar», afirma categoricamente a parábola. O que é que isto provoca em nós se ouvirmos profundamente? Podemos imaginá-lo como um slogan publicitário ou como uma consigna para ganhar seguidores? Sem dúvida que não. Vai contra o que quase sempre pensamos, desejamos ou procuramos.
 
E, no entanto, há muitos outros textos do evangelho muito semelhantes, porque contêm algo essencial da mensagem de Jesus: quem quiser entrar no Reino de Deus, tem de ser pequeno, tem de se tornar o último, não deve formular falsas pretensões, considerando-se justo. Pequeno como as crianças (Mt 19, 14), consciente da nossa pequenez e das nossas carências, e até mesmo do nosso próprio pecado, como o publicano no templo (Lc 18, 9-14). Último como aquele que serve, não aquele que aspira a ser servido, como Jesus nos lembra com as suas ações e palavras na última ceia. Por isso, fica fora de lugar, entre os seguidores de Jesus, a discussão sobre quem será o primeiro (Lc 22, 24-27), ou quem trabalha mais pelo reino ou o merece mais.
 
Mas a parábola não fala apenas de banquetes, fala das nossas atitudes no templo, ou seja, da nossa maneira de nos relacionarmos com Deus e com os outros. Buscar o último lugar é tomar consciência da própria realidade, reconhecendo que a salvação, o «ter um lugar» no reino, é sempre um dom de Deus, não algo que nos corresponde porque o conquistamos com esforço. É relacionar-nos a partir daí com Deus, que acima de tudo nos ama e nos convida continuamente. E é relacionar-nos assim com os outros, como servos, como irmãos, nunca como juízes ou senhores.
 
Estamos dispostos a sentar-nos no último lugar? Estamos dispostos a servir os outros? A nossa atitude perante o Senhor é a do filho necessitado que se sente perdoado e amado, sem méritos próprios? Porque então, só então, receberemos de Deus o verdadeiro reconhecimento, o «primeiro lugar» que corresponde aos filhos e com o qual nem ousávamos sonhar... E talvez, como Maria, como Isabel, exclamemos algo semelhante a «Como pode ser isto, se eu...?» ou «Quem sou eu para que me...?»
 
E há uma terceira parte, um convite para sermos anfitriões ao estilo de Jesus. Ele nos questiona: quem costumamos convidar para os banquetes, para os «momentos» da vida que protagonizamos, para as nossas festas, para as nossas tarefas, para os nossos espaços de lazer? Ou, dito de outra forma, com quem nos preocupamos, quem ocupa o nosso tempo e a nossa atenção? A quem dirigimos os nossos cuidados como bons anfitriões? Aos nossos, àqueles que amamos, com quem nos sentimos à vontade, com quem partilhamos ideias, interesses, etc.?  E mais uma vez Jesus surpreende-nos com uma regra «estranha», absolutamente diferente do que costumamos pensar: convidem os pobres, os doentes, aqueles que não podem retribuir o convite, aqueles que não podem pagar o favor, aqueles que não são como vocês... Aqueles de quem não podemos esperar nada. Estamos realmente dispostos a fazer isso? O que mudaria na nossa vida? Essa regra tão arraigada, ainda que inconscientemente, de primeiro eu e os meus e depois os outros, saberemos descobri-la em atos e atitudes cotidianas e mudá-la? É possível viver dessa maneira tão desinteressada?
 
A gratuidade como distintivo cristão convida-nos a dar sem esperar nada em troca, a perdoar sem exigências, a aproximar-nos e ser agradáveis também com as pessoas que não o são connosco, a ajudar e servir aqueles que não são dos nossos. É um caminho surpreendente e difícil, mas é aquele que Jesus afirma que nos fará felizes: «Bem-aventurado és tu, se não te puderem retribuir», algo tão chocante como o resto das bem-aventuranças.

A oitava bem-aventurança: «Serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos» (Lc 14, 14)
O evangelho surpreende-nos e dá-nos dois critérios muito sérios: «Coloca-te no último lugar», aquele que nos corresponde, o único que nos permitirá ser, pensar e agir como Jesus, e «Convida aqueles que não podem pagar-te», abre a tua vida a eles, dedica-lhes a tua atenção e o teu tempo, convida-os para a tua casa e para a tua festa...   E nesta dinâmica que é a do Reino, onde os últimos serão os primeiros, onde a humildade e a gratuidade são os critérios que nos distinguem, experimentaremos a felicidade, a bem-aventurança que Jesus nos promete, que Ele mesmo nos dá.

Maria Guadalupe Labrador Encinas, em Fé Adulta
Franciscana missionárias da Mãe do Divino Pastor

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