Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava
nas cidades e aldeias por onde passava. Alguém perguntou-Lhe: «Senhor, são
poucos os que se salvam?» Ele respondeu: «Esforçai-vos por entrar pela porta
estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir.»
A salvação é o tema central de todas as religiões e não
tenho receio em dizer que todas elas a abordaram de forma errada. A salvação
que nos oferecem está orientada para o falso eu.
Jesus não responde à pergunta «são poucos os que se salvam?», porque está mal colocada. A
salvação não é uma linha que se deve atravessar, mas um processo de
descentramento do eu. Convenceram-nos de que temos de ser salvos. De quê? Da
dor, da doença, do pecado, da morte? Essas limitações são essenciais à pessoa.
Sem elas, deixaríamos de ser humanos.
Infinidade de perguntas sobre a salvação: Para quando? Aqui
ou além? Material ou espiritual? Deus, Jesus ou nós nos salvamos? As obras ou a
fé salvam? A religião, os sacramentos, a oração, a esmola, o jejum salvam? A
Escritura nos salva? Individual ou comunitária? É a mesma para todos? Podemos
saber se estamos salvos?
As perguntas estão mal colocadas. Todas elas pressupõem que
existe um eu que está perdido e deve ser salvo. A salvação não consiste em
alcançar a segurança para o meu eu individual, mas em superar toda a ideia de
individualismo. A religião falhou ao propor a salvação do nosso falso eu, que é
o anseio mais profundo de todo ser humano.
Todos são salvos de alguma forma, porque todo o ser humano
revela algo dessa humanidade, por mais mínima que seja. E ninguém alcança a
plenitude da salvação porque as possibilidades de ser mais humano não têm
limites. Todos nós somos salvos e necessitados de salvação. Esta ideia nos
confunde, porque não satisfaz os desejos do eu.
Entendemos mal a questão da porta estreita e isso levou-nos
a um beco sem saída. O esforço não deve ser direcionado para potenciar um eu
para garantir a sua permanência, mesmo no além. Não faz muito sentido
esperarmos a salvação para quando deixarmos de ser seres humanos autênticos, ou
seja, para depois de morrermos.
A salvação não consiste na libertação das limitações. A
salvação consiste em alcançar a plenitude sem pretender deixar de ser criatura
e limitados. A verdadeira salvação é possível apesar das minhas carências,
porque tem de acontecer noutro plano: nem a doença, nem a morte, nem o pecado
diminuem em nada a minha condição de ser humano, filho(a) de Deus.
Devemos descartar a ideia de um limiar que temos de
ultrapassar. Não devemos enfatizar a porta, mas sim aquele(a) que deve
atravessá-la. Não é que a porta seja estreita, é que ela se fecha
automaticamente assim que «alguém» (um ego) tenta atravessá-la. Somente quando
tomarmos consciência de que somos «ninguém», ela se abrirá de par em par.
Não precisamos de esperar por um além para descobrir se
acertamos ou erramos. O nosso grau de salvação manifestar-se-á na qualidade
humana das nossas relações com os outros.
Não se trata de práticas ou crenças, mas de humanidade
manifestada no serviço a todos. O que acreditas fazer diretamente em atenção a
Deus não tem qualquer importância. O que fazes todos os dias pelos outros é o
que determina o teu grau de plenitude humana, que é a verdadeira e efetiva
salvação (experimentada já aqui na Terra e consumada no Céu, porque, no Paraíso, ninguém chega sozinho).
Fray Marcos, em Fé Adulta
Ideias claras
Isto foi o que nos mostrou Jesus: o que nos transforma, nos torna pessoas melhores e constrói um mundo aperfeiçoado não é o moralismo, nem o voluntarismo. O que nos transformará, no uso do que é meio de mudança – Fé, exigência ética, compromisso sociopolítico – é a passagem de uma consciência egoica para a consciência fraterna. É isso que tornará possível a transformação da nossa realidade individual e coletiva.
Ideias práticas
Vamos construir uma Igreja que é um banquete; expressão do
Reino que é plenitude, satisfação, festa, alegria, solidariedade, fraternidade.
Vamos ser comunidades paroquiais e religiosas que
reflitem pequenos mundos com relações humanizadas e fraternas, onde cada pessoa
se sinta acolhida, receba carinho e viva em paz.
Vamos viver um discipulado de homens e mulheres dispostos a
seguir de perto os passos de Jesus, apostando sempre e em todos os contextos
nos mais indefesos deste mundo.
Vamos dar um testemunho mais coerente, com mais
profundidade de misericórdia, mais envolvimento nas instituições, mais aposta em favor do mundo sempre possível de melhorar com a nossa ação.
Vicky Irigaray, em Fé Adulta
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