É o meu ego inflado que vai ficar preso na porta estreita - comentário ao Evangelho de Lucas

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 13, 22-30)
Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava. Alguém perguntou-Lhe: «Senhor, são poucos os que se salvam?» Ele respondeu: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir.»
 
A salvação é o tema central de todas as religiões e não tenho receio em dizer que todas elas a abordaram de forma errada. A salvação que nos oferecem está orientada para o falso eu.
 
Jesus não responde à pergunta «são poucos os que se salvam?», porque está mal colocada. A salvação não é uma linha que se deve atravessar, mas um processo de descentramento do eu. Convenceram-nos de que temos de ser salvos. De quê? Da dor, da doença, do pecado, da morte? Essas limitações são essenciais à pessoa. Sem elas, deixaríamos de ser humanos.
 
Infinidade de perguntas sobre a salvação: Para quando? Aqui ou além? Material ou espiritual? Deus, Jesus ou nós nos salvamos? As obras ou a fé salvam? A religião, os sacramentos, a oração, a esmola, o jejum salvam? A Escritura nos salva? Individual ou comunitária? É a mesma para todos? Podemos saber se estamos salvos?
 
As perguntas estão mal colocadas. Todas elas pressupõem que existe um eu que está perdido e deve ser salvo. A salvação não consiste em alcançar a segurança para o meu eu individual, mas em superar toda a ideia de individualismo. A religião falhou ao propor a salvação do nosso falso eu, que é o anseio mais profundo de todo ser humano.
 
Todos são salvos de alguma forma, porque todo o ser humano revela algo dessa humanidade, por mais mínima que seja. E ninguém alcança a plenitude da salvação porque as possibilidades de ser mais humano não têm limites. Todos nós somos salvos e necessitados de salvação. Esta ideia nos confunde, porque não satisfaz os desejos do eu.
 
Entendemos mal a questão da porta estreita e isso levou-nos a um beco sem saída. O esforço não deve ser direcionado para potenciar um eu para garantir a sua permanência, mesmo no além. Não faz muito sentido esperarmos a salvação para quando deixarmos de ser seres humanos autênticos, ou seja, para depois de morrermos.
 
A salvação não consiste na libertação das limitações. A salvação consiste em alcançar a plenitude sem pretender deixar de ser criatura e limitados. A verdadeira salvação é possível apesar das minhas carências, porque tem de acontecer noutro plano: nem a doença, nem a morte, nem o pecado diminuem em nada a minha condição de ser humano, filho(a) de Deus.
 
Devemos descartar a ideia de um limiar que temos de ultrapassar. Não devemos enfatizar a porta, mas sim aquele(a) que deve atravessá-la. Não é que a porta seja estreita, é que ela se fecha automaticamente assim que «alguém» (um ego) tenta atravessá-la. Somente quando tomarmos consciência de que somos «ninguém», ela se abrirá de par em par.
 
Não precisamos de esperar por um além para descobrir se acertamos ou erramos. O nosso grau de salvação manifestar-se-á na qualidade humana das nossas relações com os outros.
 
Não se trata de práticas ou crenças, mas de humanidade manifestada no serviço a todos. O que acreditas fazer diretamente em atenção a Deus não tem qualquer importância. O que fazes todos os dias pelos outros é o que determina o teu grau de plenitude humana, que é a verdadeira e efetiva salvação (experimentada já aqui na Terra e consumada no Céu, porque, no Paraíso, ninguém chega sozinho).

Fray Marcos, em Fé Adulta

Ideias claras
Isto foi o que nos mostrou Jesus: o que nos transforma, nos torna pessoas melhores e constrói um mundo aperfeiçoado não é o moralismo, nem o voluntarismo. O que nos transformará, no uso do que é meio de mudança – Fé, exigência ética, compromisso sociopolítico – é a passagem de uma consciência egoica para a consciência fraterna. É isso que tornará possível a transformação da nossa realidade individual e coletiva.

Ideias práticas
Vamos construir uma Igreja que é um banquete; expressão do Reino que é plenitude, satisfação, festa, alegria, solidariedade, fraternidade.
 
Vamos ser comunidades paroquiais e religiosas que reflitem pequenos mundos com relações humanizadas e fraternas, onde cada pessoa se sinta acolhida, receba carinho e viva em paz.
 
Vamos viver um discipulado de homens e mulheres dispostos a seguir de perto os passos de Jesus, apostando sempre e em todos os contextos nos mais indefesos deste mundo.
 
Vamos dar um testemunho mais coerente, com mais profundidade de misericórdia, mais envolvimento nas instituições, mais aposta em favor do mundo sempre possível de melhorar com a nossa ação.

Vicky Irigaray, em Fé Adulta

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