«Nossa Senhora, Maria, está triste porque muitos buscam milagres, mas não O Salvador»

«Há uma diferença abissal entre buscar a Deus e buscar algo de Deus. O primeiro gesto é encontro, o segundo é consumo», escreve Oliver Harden, escritor brasileiro, neste texto:

A maioria dos devotos de Nossa Senhora deseja milagres, mas não a intimidade com o sagrado. Querem a dádiva, mas não a aliança, o efeito, mas não a causa, a luz, mas não a disciplina do fogo que a gera. Buscam o gesto divino como quem exige um favor, não como quem compreende a profundidade do vínculo que o torna possível.

Há um tipo de fé que se alimenta do milagre como quem se alimenta de pão, mas que recusa a mesa onde se partilha o sagrado. É uma fé apressada, utilitária, emocionalmente intensa, mas espiritualmente oca. Uma fé que exige resultados, mas não oferece presença. Que ora como quem faz um pedido num balcão invisível, e espera o retorno com a impaciência de quem já perdeu a capacidade de reverência.

Vivemos numa época em que muitos querem o milagre, mas poucos desejam a companhia da divindade. Deseja-se a intervenção celeste, mas não a escuta. O alívio da dor, mas não o silêncio que antecede a sabedoria. O toque que cura, mas não a palavra que fere o ego. Há, nesse tipo de religiosidade, uma espécie de consumo metafísico, como se o divino fosse uma extensão do desejo humano, e não seu abismo redentor.

Há os que clamam por respostas, mas não suportariam a voz de um Deus que dissesse: “Antes do sim, quero o teu coração.” Porque o verdadeiro milagre, esse que não se vê, mas que transforma, exige entrega. Não apenas pedidos, mas renúncia. Não apenas bênçãos, mas compromisso. Exige não só que se olhe para o alto, mas que se curve a alma.

O milagre, quando genuíno, não é espetáculo, é consequência. Ele não é um fim em si, mas a manifestação última de uma comunhão que já vinha sendo construída nos bastidores da alma. E por isso mesmo, ele escapa aos impacientes, aos oportunistas da fé, aos que confundem oração com barganha.

A maioria quer a luz, mas não o fogo que a produz. Quer o fruto, mas não a poda. Quer ser tocada por Deus, mas não transformada por Ele. Porque transformação dói. E o divino, quando é real, não se limita a curar feridas, ele revela a causa delas. E aí está o verdadeiro assombro, nem sempre queremos saber.

Há uma diferença abissal entre buscar a Deus e buscar algo de Deus. O primeiro gesto é encontro, o segundo é consumo. E como toda lógica consumista, quando o pedido não é atendido, o cliente muda de loja. Muda de credo, de templo, de vocabulário, mas não muda de postura.

Talvez por isso tantos clamem por milagres e tão poucos os reconheçam. Porque milagre, no sentido mais alto, não é aquilo que muda fora, mas aquilo que irrompe dentro. E para que isso aconteça, é preciso mais do que desejo, é preciso aliança.

O milagre não é um prémio, é um transbordamento. Não é resposta a uma exigência, mas o eco de uma intimidade. E a maioria, infelizmente, ainda quer o eco sem a voz, a dádiva sem o doador, o efeito sem a causa.

Mas o sagrado, esse, não se presta a conveniências. Ele se revela, como sempre, aos que se aproximam descalços.

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