Deus não cabe nas nossas caixas - reflexão do pensador cristão Saúl Marrero Rivera

Há no ser humano uma tendência subtil e persistente: querer encaixotar Deus, reduzi-lo às nossas categorias, envolvê-lo nas nossas certezas. 

Damos-lhe forma com as nossas ideias, limitamo-lo com os nossos julgamentos, vestimo-lo com as nossas ideologias. 

Assim, sem nos darmos conta, deixamos de adorar o Deus vivo... para adorar um reflexo domesticado de nós próprios.

Mas Deus não cabe nos nossos moldes.

Não é de direita nem de esquerda;

não é conservador nem progressista;

não é só justo nem só misericordioso;

é o Todo que transborda os nossos extremos. 

É mistério que salva, amor que desarma, liberdade que não se deixa possuir.

Quando Jesus veio, quebrou os esquemas religiosos do seu tempo. Deixou-se tocar por pecadores, curou ao sábado, abraçou os excluídos. O seu modo de ser escandalizou quem queria um Deus previsível, rígido, “correto”.

E ainda hoje custa-nos aceitar que Deus possa ser mais amplo do que as nossas doutrinas, mais terno do que os nossos limites, mais surpreendente do que as nossas tradições.

Encaixotar Deus é idolatria. Porque adorar o verdadeiro Deus implica deixar que Ele nos desconcerte, que nos tire das nossas seguranças, que nos obrigue a voltar a amar. Implica confiar num mistério que não controlamos, mas que age sempre por amor.

Como disse Santo Agostinho: “Se o compreendes, não é Deus.” Porque o Deus verdadeiro não se deixa apanhar, deixa-se encontrar. Não se deixa definir, deixa-se abraçar.

E só quando deixamos de encaixotá-lo... descobrimos que Ele já saiu ao nosso encontro, com uma ternura que não tem limites e uma verdade que não precisa de correntes.

Tradução de Paulo Costa.
O autor também escreve em https://pastoralsj.org/author/saulito

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