«Herdámos um jardim; não deixemos um deserto aos nossos filhos» - Uma reflexão para a celebração do Tempo da Criação (5 de setembro a 4 de outubro)
A terra clama, geme! Os rios arrastam feridas invisíveis; as
florestas guardam silêncios – entre cinzas atuais – onde antes cantavam os
pássaros; e os glaciares choram o seu lento desaparecimento.
O ar traz consigo
o clamor dos pobres, dos pequenos, das criaturas deslocadas. E no meio deste
lamento, a Igreja proclama com esperança: «O fruto da justiça será a paz» (Isaías
32, 17).
Todos os anos, de 5 de setembro a 4 de outubro, celebramos o
Tempo da Criação, um espaço ecuménico onde a oração e a ação se entrelaçam como
raízes de uma mesma árvore. É tempo de ouvir novamente a linguagem da Terra e
de nos deixarmos conduzir pelo Espírito para uma conversão.
A liturgia do rio e das cataratas
Em Alcalá de Henares, junto ao rio Henares, a diocese celebrou
um passeio contemplativo: rezando com os pés na terra, recolhendo o lixo que
fere a paisagem, plantando uma oliveira como símbolo de paz. Lá, o bispo
Antonio Prieto – insistindo na sementeira de vida e esperança – presidiu à
Missa pelo Cuidado da Criação, aprovada pelo papa Leão XIV, em comunhão com a
comunidade ortodoxa.
À noite, evoquei o outro extremo do mundo, as Cataratas do
Iguaçu americanas, que se transformaram num altar natural onde o bispo Nicolás
Baisi presidiu a Eucaristia deste dia. O estrondo da água lembrava que todo dom
provém da fonte da vida. Lá foram homenageados os guardas-florestais que
morreram defendendo a selva missionária. E ressoou a pergunta de Santo
Agostinho: «Olha para nós, somos belas... quem as fez senão a Suprema Beleza?»
O Evangelho não pode ser dissociado da defesa da terra e dos
povos que a habitam.
Um jardim em Roma
Em Roma, o Papa Leão XIV inaugurou o Borgo Laudato Si' em
Castel Gandolfo: um espaço de espiritualidade, formação e cuidado da criação. É
um gesto profético que lembra que o cuidado da terra não é acessório, mas parte
essencial da fé
Como proclamaram juntos Francisco, Bartolomeu e Justin
Welby: «Herdámos um jardim; não devemos deixar um deserto aos nossos filhos».
Há 1700 anos, o Credo de Nicéia confessou Deus como criador
do céu e da terra.
E o Papa Leão XIV lembrou com veemência: «A justiça
ambiental não pode ser um conceito abstrato. É uma questão de fé e de
humanidade. É hora de passar das palavras aos factos.»
A guerra e a esperança
O profeta Isaías falou de fortalezas derrubadas e cidades
desoladas (Is 32,14). As suas palavras soam atuais diante das guerras,
incêndios, migrações climáticas e oceanos cheios de plásticos. A guerra contra
a criação é também uma guerra contra os pobres.
Mas Isaías também anuncia esperança: «Até que, do alto, o
Espírito seja derramado... então o deserto se tornará um campo fértil» (Is 32, 15).
Essa é a certeza cristã: o Espírito pode renovar a face da terra.
Rumo a um novo céu e uma nova terra
A ecologia integral lembra-nos que não há duas crises
separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise
socioambiental. A vida das florestas e a dignidade dos pobres fazem parte da
mesma ferida:
- a água que é contaminada é a mesma que mata a sede das
crianças;
- a terra que se degrada é a mesma que deveria alimentar os
famintos.
Cuidar da criação é cuidar da Humanidade.
Não há justiça climática sem justiça social. A defesa do ar,
dos rios e da biodiversidade é inseparável da defesa das crianças que morrem de
fome, dos migrantes expulsos por secas e inundações, dos povos que clamam por
viver em paz.
O Tempo da Criação é profecia e promessa: «O efeito da
justiça será a paz» (Is 32, 17). Paz entre os povos e paz com a terra.
Paz que nasce quando deixamos de explorar e aprendemos a
cultivar, quando substituímos a ganância pela gratidão, quando descobrimos que
a terra não é um espólio, mas um dom partilhado.
De Alcalá, com uma oliveira recém-plantada; de Iguazú, com o
rugido da água que proclama a glória de Deus; de Roma, com um jardim que se
abre para o futuro, brota a mesma certeza: o Espírito está a renovar a face da Terra.
E então, como na visão do Apocalipse, veremos «um novo céu e
uma nova terra» (Ap 21, 1), onde a criação e a Humanidade, reconciliadas,
poderão cantar juntas o shalom de Deus: a paz plena que abraça rios e
povos, montanhas e cidades, a floresta e o coração humano.
José Luis Pinilla, jesuíta, em Fé Adulta
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