Mensagem do congresso de Teologia sobre «Um mundo em trevas. há motivos para esperança?» (Madrid, 5-7 setembro 2025)

De 5 a 7 de setembro de 2025, realizou-se, em Madrid, Espanha, o 44.º Congresso de Teologia, com o tema «Um mundo nas trevas. Há motivos para ter esperança?», organizado pela Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII. 

Participaram mais de 250 pessoas de diferentes países e continentes. Acompanharam na reflexão especialistas em ciência política, ciências da informação, teologia da libertação e teologia ecofeminista: Juan José Tamayo, Cristina Monje, Teresa Aranguren, Alejandro Ortiz, Ivone Gebara e Emilce Cuda, que ofereceram análises rigorosas e propostas para sair do mundo em trevas em que nos encontramos.

1. Vivemos num mundo em colapso provocado por uma série de megaproblemas e sistemas de dominação, tais como, entre outros, o colonialismo, o patriarcado, o neocapitalismo, a depredação da natureza, o armamentismo, a xenofobia, o racismo e a aporofobia, o triunfo das distopias e a naturalização da violência na vida quotidiana e nas relações internacionais.

2. O descontentamento tomou conta das democracias ocidentais e está a corroer a ideia de representação, a adesão a valores libertadores e a convivência cívica. As democracias, outrora máquinas de bem-estar, tornaram-se máquinas de mal-estar.

3. Isso é visível em cada processo eleitoral com o avanço dos movimentos de extrema direita, antidemocráticos e ultraconservadores, até conseguirem governar em vários países. São movimentos que negam o valor do igualitarismo.

4. Para reverter esta situação, é necessário pensar, debater e imaginar coletivamente o futuro que queremos alcançar, estabelecer alianças para refazer um novo «contrato social» e concretizar as oportunidades que nos oferecem a transição ecológica, os avanços tecnológicos ao serviço da Humanidade mais desprotegida, as vantagens de uma sociedade feminista onde todas as pessoas vivam melhor e a diversidade que a migração traz.

5. Hoje, impõem-se narrativas belicistas, que desqualificam linguagens e práticas pacifistas e normalizam a violência. A sua modalidade mais destrutiva é o projeto colonial e sionista de Israel contra o povo palestiniano, que remonta ao final do século XIX e cujo maior atentado contra a vida é o atual genocídio com o assassinato de mais de sessenta e quatro mil pessoas de Gaza, a fome como arma de guerra, a deslocação forçada de todos os habitantes da Faixa de Gaza e, em definitiva, o extermínio.

6. O genocídio está a ocorrer com a inoperância da ONU e de outros organismos internacionais, a inação cúmplice da Europa, o apoio incondicional dos Estados Unidos e o silêncio da maioria dos líderes religiosos mundiais, com honrosas exceções, entre outras, as do Papa Francisco, que falou abertamente de genocídio, e dos patriarcas latinos e ortodoxos, que acabaram de condenar energicamente a invasão da cidade de Gaza.

7. Nós, mulheres, que fomos varridas da liderança do mundo e somos consideradas incapazes de representar o Deus patriarcal, nos rebelamos contra as leis discriminatórias e, em muitos lugares, agimos com rebeldia e praticamos a ética do cuidado. Defendemos a interdependência vital de tudo o que existe, para além das hierarquias patriarcais excludentes e dos discursos teóricos muitas vezes sem ações concretas.

8. Acreditamos que o cristianismo radical, entendido como ir às fontes antropológicas do ser, do viver e do conviver e às raízes evangélicas, pode e deve contribuir para sair do colapso em que se encontra o mundo. Como? Através da hospitalidade com os migrantes, refugiados e deslocados, do questionamento da globalização neoliberal excludente, da condenação do sexismo, da LGTBIQ+fobia e das masculinidades hegemónicas, o compromisso com o ecofeminismo, que implica igualdade e justiça de género e o reconhecimento dos direitos e da dignidade da Natureza, a não imposição da concepção ocidental do cristianismo às demais culturas, a aliança com os movimentos sociais e, em definitiva, a prática do verso de José Martí: «com os pobres da terra quero a minha sorte».

9. Para sair deste mundo em trevas, consideramos de especial importância o pensamento político, económico e ecológico revolucionário do Papa Francisco, crítico do neoliberalismo, que considera injusto na sua essência, em aliança com os movimentos sociais populares e ao serviço do bem comum. Francisco pronunciou quatro nãos: não a uma economia de exclusão que mata, não à nova idolatria do dinheiro, não a um dinheiro que governa em vez de servir e não à desigualdade que gera violência. Ele se empenhou na reforma da Igreja através da Sinodalidade, embora na prática continue a manter-se a estrutura hierárquica e clerical e a discriminação das mulheres.

10. Num mundo onde se misturam as trevas e as luzes, propomos um cristianismo marcado pelo pluralismo e pelas obscuridades, que defenda a justiça económica, ecológica e de género e aprenda a caminhar por terrenos misturados de flores e espinhos, sem idealismos, mas sem renunciar à utopia. Convidamos a caminhar juntos das periferias ao centro, construindo pontes para a paz, uma «paz desarmada e desarmante» (Leão XIV), baseada na justiça, na equidade e no respeito pela diferença, no meio de uma guerra em pedaços contra a Natureza e a Humanidade.

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