Do Evangelho segundo São Lucas 16, 19-22: «Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes.
Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas.
Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão.
Morreu também o rico e foi sepultado.»
Os Lázaros:
os filhos da rua,
os párias de sempre,
os sem-abrigo,
os desempregados,
os desenraizados,
os apátridas,
os sem documentos,
os mendigos,
os maltrapilhos,
os esfarrapados,
os pobres de solenidade,
os cheios de feridas,
os sem direitos,
os imigrantes ilegais,
os de estômago vazio,
os que não contam,
os marginalizados,
os fracassados,
os santos inocentes,
os donos de nada,
os perdedores,
os que não têm nome,
os ninguém...
Os Lázaros:
que não são, embora sejam,
que não leem, mas soletram,
que não falam línguas, mas dialetos,
que não cantam, mas desafinam,
que não professam religiões, mas superstições,
que não têm lírica, mas tragédia,
que não acumulam capital, mas dívidas,
que não fazem arte, mas artesanato,
que não praticam cultura, mas costumes,
que não chegam a ser jogadores, mas espectadores,
que não são cidadãos reconhecidos, mas estrangeiros,
que não chegam a ser protagonistas, mas figurantes,
que não pisam tapetes, mas terra,
que não conseguem créditos, mas despejos,
que não inovam, mas reciclam,
que não sobem em iates, mas em embarcações improvisadas de
borracha ou madeira (pateras),
que não são profissionais, mas peões,
que não chegam à universidade, mas ao ensino básico,
que não se sentam à mesa, mas no chão,
que não recebem medicamentos, mas lambidas de cães,
que não se queixam, mas se resignam,
que não têm nome, mas número,
que não são seres humanos, mas recursos humanos...
Os Lázaros:
aqueles que se envergonham e nos envergonham,
povoam a nossa história,
foram os Teus prediletos, Jesus,
e estão muito presentes no teu Evangelho.
Os Lázaros
pertencem à nossa família,
embora não apareçam na fotografia,
e serão eles que nos devolverão a identidade
e a dignidade perdidas.
Florentino Ulibarri, em Fé Adulta
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