«A Igreja não é uma mercearia!» - texto do presbítero Marco Luciano, pároco na Vila Rabo de Peixe, Açores
Vivemos tempos em que muitos olham para a Igreja como quem
olha para uma estação de serviços ou uma mercearia onde se vai “comprar”
sacramentos e bênçãos. Há quem a procure apenas quando precisa de batizar um
filho, casar, ou celebrar uma missa por alguém, como se o Evangelho se
resumisse a um conjunto de ritos prestáveis, disponíveis a qualquer hora, ao
gosto e medida de cada um.
Mas ser discípulo de Cristo é algo muito diferente. O
seguimento de Jesus não é uma questão de conveniência, mas de conversão. Não é
um contrato de prestação de serviços religiosos, mas uma aliança de amor e
fidelidade com Aquele que nos chamou à vida nova no Batismo. O cristão
verdadeiro não procura a Igreja apenas quando precisa dela, mas vive na Igreja,
faz parte dela, serve nela, sofre e alegra-se com ela.
A fé não é uma agenda social nem um calendário de festas. Há
uma grande tentação em reduzir a vida da Igreja a acontecimentos, convívios e
celebrações, onde o centro já não é Cristo, mas as próprias pessoas. Pior ainda
quando a política em muitos lugares se serve da religião, com autênticos
cartazes políticos, onde não falta o “pão e circo” que serve para alimentar o
entusiasmo popular e manter o favor de alguns até às próximas eleições. Tudo
isso é uma perversão do Evangelho.
Quando Cristo deixa de ser o centro, tudo se desfigura. O
altar perde o seu sentido, a caridade converte-se em vaidade, e a fé torna-se
espetáculo. Vivemos num tempo perigoso: os que pouco ou nada têm a ver com a
Igreja são, muitas vezes, os primeiros a exigir tudo, missas particulares,
celebrações exclusivas, privilégios, lugares de destaque, como se o sagrado
fosse um bem de consumo.
É preciso coragem para romper este ciclo. Coragem para dizer
“não” ao pseudocristianismo que nada tem de Evangelho nem de fé. Coragem para
educar os fiéis na autenticidade da vida cristã, lembrando que o que vale não é
o brilho das aparências, mas a coerência de uma vida convertida.
Também dentro da Igreja há exageros que nos desviam da
essência. Há quem confunda ministério com protagonismo, serviço com poder,
piedade com sentimentalismo. Há grupos que se julgam donos do Espírito Santo e
comunidades que se dividem por preferências litúrgicas, como se a fé fosse uma
questão de estilo. Tudo isto é sintoma de uma doença espiritual: o ego a ocupar
o lugar de Deus.
A Igreja é santa porque Cristo é o seu Senhor, mas é sempre
chamada à conversão porque os seus membros são frágeis. Precisamos de
reencontrar a simplicidade do Evangelho, a sobriedade da fé, a humildade do
serviço. A Igreja não é uma empresa, é um Corpo; não é um mercado, é um
mistério; não é um espetáculo, é um sacramento de salvação.
O mundo não precisa de cristãos de ocasião, mas de
discípulos fiéis. De homens e mulheres que amam a Igreja não pelo que dela
recebem, mas pelo que nela oferecem. Que saibam dizer com a vida que seguir
Cristo é mais do que assistir a cerimónias, é viver em comunhão, é deixar-se
transformar pelo Espírito, é carregar a cruz todos os dias e caminhar com
esperança.
Presbítero Marco Luciano, pároco na Vila Rabo de Peixe,
município
da Ribeira Grande, Açores, em Facebook
Parabéns Sr Padre , pela coragem de desmascarar tanta hipocrisia que se nota em nossos dias nas nossas igrejas. Que o Espírito Santo o ilumine e fortaleça para catequisar os seus paroquianos e outras pessoas!
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