No dia 1 de novembro, festa de Todos os Santos, lê-se em
todas as igrejas do mundo católico a passagem das Bem-aventuranças, que aparece
no evangelho de Mateus (Mateus 5, 1-11). Quando ouço, leio e, sobretudo, quando reflito sobre
esta passagem, não consigo evitar que me venham à mente os últimos versos do
poema «Um Mundo ao Contrário», de José Agustín Goytisolo:
Era uma vez
um lobo bom,
que era maltratado
por todos os cordeiros.
E havia também
um príncipe mau,
uma bruxa bonita
e um pirata honesto.
Todas essas coisas
existiam uma vez,
quando eu sonhava
com um mundo ao contrário.»
(José Agustín Goytisolo, Los poemas son mi orgullo: antología poética, Lumen).
Bem-aventuranças, um projeto contracorrente e perigoso
Porque o que Jesus nos lembra nesta passagem é que o seu
projeto não é uma questão de alguns arranjos, de uma mudança de imagem ou de
alguns retoques com uma camada de verniz. Para constatar que é assim, basta
entrar no Evangelho e ver o que lá aparece sobre o que Ele disse e fez durante
a sua vida pública entre as pessoas do seu tempo.
Quando se está dentro,
percebe-se, de forma evidente e palpável, que não se trata de uma
reestruturação ou de uma mudança na linha do «convém mudar tudo para que tudo
continue igual». Estamos perante um projeto de vida totalmente novo e radical.
Ocorre-me uma imagem que, para mim, é mais do que sugestiva: é como se
colocássemos a mão no fundo da meia, a pegássemos pela ponta e a virássemos do
avesso.
Para começar, estou plenamente convencido de que qualquer
pessoa, em sã consciência, classificaria hoje como «palhaçadas» as
recomendações que Jesus oferece para alcançar a felicidade verdadeira e
duradoura.
Por exemplo, por mais que olhemos para ela, numa sociedade
do sucesso fácil, do destaque acima de todos e da aparência acima de tudo,
falar da pobreza como caminho para alcançar a paz interior e a harmonia com
tudo e com todos é, em termos clínicos, um diagnóstico psiquiátrico grave que
se explica no primeiro ano da faculdade.
E o mesmo poderíamos dizer de todas e
cada uma das recomendações restantes: viver de forma humilde, praticar a
misericórdia, olhar com olhos limpos, trabalhar incansavelmente pela paz e pela
justiça. Ora, até mesmo o psicólogo e psiquiatra mais vulgar teria facilidade
em diagnosticá-lo como loucura, esquizofrenia ou delirium tremens.
Mas não
apenas os profissionais de doenças mentais. Qualquer pessoa do povo simples
encorajaria a deixá-lo de lado, o mais rápido possível, porque o mundo e a
sociedade em que vivemos não estão para essas loucuras. E é por isso que o cerne da questão deve ser procurado no final
do texto: «Bem-aventurados sois quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem
de qualquer forma por minha causa» (Mateus 5, 11).
Feliz é quem sofre animosidade por ter apostado ou continuar a apostar nas causas de Jesus Cristo
Portanto, para alcançar a verdadeira felicidade e harmonia
interior, garantidas por Jesus, não vale a pena que a perseguição venha por
qualquer razão ou motivo. A garantia só é assegurada nos casos em que a
animosidade é provocada por ter apostado ou continuar a apostar nas causas
Dele. Não seja por acaso que alguém queira apropriar-se disso, confundindo
perseguição pela justiça com chamadas à ordem ou proibições por pregar ou
difundir pensamentos religiosos que nada têm a ver com a mensagem de paz e justiça
que aparece no Evangelho.
Se assim for, a pergunta imediata é mais do que evidente:
quais são essas causas? Para nos ajudar, eu começaria advertindo que, nos
tempos de Jesus, não eram aquelas relacionadas ao Templo ou ao Império, pois
eram precisamente essas duas causas que oprimiam os pobres e excluídos, pelos
quais Jesus havia demonstrado preferência e apostado de forma categórica, desde
o início. Eram causas de carne e osso e com nomes próprios: o cego Bartimeu, a viúva
de Naim, o pobre Lázaro, etc. Também causas com nomes comuns, mas igualmente
famintas pela dignidade que a religião e o poder da época lhes negavam: o cego
de nascença e o aleijado da piscina, entre outros.
Neste dia 1 de novembro, celebramos a festa daqueles que,
com nome próprio ou comum, por serem anónimos, apostaram e continuam a apostar
nas «causas de Jesus», que são, precisamente, as dos «últimos». Causas, também
hoje, com nomes próprios, como a Palestina e tantas guerras e injustiças que
assolam o mundo (cujos nomes não menciono para não deixar nenhuma delas no
esquecimento). Mas, causas, ao mesmo tempo, com nomes «comuns», embora não por
isso menos graves e virulentas. Trata-se, entre outras, das pessoas
«massacradas» física e psicologicamente pela fome material que, em muitos
casos, as transforma em verdadeiros espectros vivos; pela negação da cultura,
pela violência estrutural que quebra e destrói as relações quotidianas das suas
vidas e, infelizmente, por uma longa lista de outras causas, que seria quase
interminável. São eles e elas que clamam, com urgência inadiável, pela
necessária transformação do ambiente físico e espiritual em que vivem.
São as «causas do Evangelho» que, é preciso dizer, também
hoje, como antigamente, nem sempre coincidem ou estão muito distantes das
«causas da religião do momento».
Juan Zapatero Ballestero, em Eclesalia Informativo
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