Cabeças em obras: «Lapidar a mente seria reeducar o olhar, restituir ao pensamento o tempo da maturação. Seria devolver ao intelecto a dignidade de errar, de hesitar, de construir e demolir, antes de afirmar.»
Vivemos a era das cabeças utilitárias, onde o pensamento
deixou de ser um exercício de profundidade para se tornar um simples transporte
de informações, um meio de locomoção de ideias alheias.
As mentes contemporâneas, incapazes de elaborar, apenas
transferem. Já não há digestão intelectual, há apenas trânsito. Dados, opiniões
e slogans passam por elas como mercadorias num entreposto mental, embaladas e
entregues sem jamais serem compreendidas.
As cabeças da atualidade necessitam urgentemente de poder de
lapidação. O diamante bruto do intelecto humano, abandonado pela educação
reflexiva e substituído pela pedagogia da pressa, perdeu o brilho da
contemplação. Lapidar significa resistir à facilidade, significa friccionar o
pensamento contra a dureza da dúvida, contra a aspereza do real. O polimento da
mente se dá no atrito com o contraditório, no exercício de suportar a
complexidade sem reduzi-la a frases prontas.
O homem de hoje, porém, não pensa, partilha. A opinião
tornou-se o substituto da ideia, a velocidade, o critério da verdade. O
pensamento foi terceirizado para os algoritmos, e a consciência, domesticada
pela conveniência, perdeu a coragem de elaborar o próprio juízo. Somos
espectadores do fluxo informacional, não escultores do sentido. Cada cabeça é
um depósito de fragmentos, um contentor de ruídos, uma biblioteca sem
bibliotecário.
Lapidar a mente seria reeducar o olhar, restituir ao
pensamento o tempo da maturação. Seria devolver ao intelecto a dignidade de
errar, de hesitar, de construir e demolir, antes de afirmar.
O poder de lapidação não é o da acumulação, mas o da
depuração, o mesmo gesto com que o artista remove o excesso da pedra até que a
forma surja. O pensamento genuíno não nasce da abundância de conteúdo, mas da
precisão do corte.
Sem lapidação, o intelecto degenera em reflexo. E o reflexo
é o estágio final da escravidão mental, é o ponto em que a mente, saturada de
estímulos, já não escolhe, apenas reage.
A tecnologia, que poderia ser ferramenta de expansão
cognitiva, tornou-se um espelho que reflete as nossas próprias mediocridades
amplificadas.
O homem contemporâneo vive cercado de saberes, mas privado
de sabedoria, inundado de dados, mas sedento de sentido.
O futuro da inteligência não dependerá da quantidade de
informação que se possui, mas da capacidade de transformar a informação em
compreensão. Lapidar a cabeça é, portanto, um ato de resistência espiritual,
uma forma de insurgência contra a banalização do pensar. É reerguer o ofício da
reflexão num mundo de operários da repetição.
Porque só o pensamento lapidado é capaz de produzir luz, e
sem luz, as cabeças continuarão sendo apenas transportadoras de pacotes,
transitando no escuro da própria inconsciência.
Oliver Harden, em Facebook
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