Carta belíssima de missionário aos seus colegas mais idosos: «Obrigado por continuarem a ser luz, mesmo que o mundo nem sempre a veja»
O padre José Miguel Córdova Alcázar, missionário comboniano natural
do Perú, de 57 anos, olhando para trás, pensou em escrever uma carta pública
para expressar a sua gratidão aos numerosos irmãos e amigos mais velhos que
conheceu ao longo da sua vida missionária.
O padre José Miguel fez o seu noviciado em Sahuayo, México,
e os estudos de Teologia em Elstree, Inglaterra. Foi ordenado sacerdote
ministerial em 2000. Pouco depois, partiu como missionário para a Etiópia. Depois
de um período de missão no Peru, atualmente, encontra-se na comunidade comboniana
de Barcelona, Espanha.
Carta aos nossos irmãos e irmãs mais velhos: «Testemunhas da
fidelidade» Inspirada em João 21, 18-20
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje quero dirigir-me a vocês, homens e mulheres que, ao
longo da vida, amaram, trabalharam, lutaram, acreditaram e continuam a ser uma
presença viva nas nossas comunidades. Esta carta nasce do Evangelho, mas também
da vida. Daquela vida que vocês conhecem bem, porque a viveram com intensidade,
com entrega, com fé.
Jesus diz a Pedro: «Quando eras jovem, cingias-te a ti mesmo
e ias para onde querias; mas quando fores velho, estenderás as mãos, e outro te
cingirá e te levará para onde não queres.»
Estas palavras, longe de ser uma renúncia, são uma revelação
profunda sobre o passar do tempo, sobre a fragilidade humana e sobre a
fidelidade de Deus que nunca se retira.
Vivemos numa sociedade que muitas vezes idolatra a
juventude, a produtividade, a rapidez. Fala-se de inovação, de mudança
constante, de futuro. No entanto, no meio dessa vertigem, vocês — os nossos
mais velhos — são memória, raiz, testemunho. São aqueles que podem dizer: «Eu
vi que Deus não falha.» E isso, hoje mais do que nunca, é necessário.
Muitos de vocês foram protagonistas da história. Religiosos
e religiosas que fundaram comunidades, missionários que cruzaram fronteiras,
leigos que sustentaram paróquias, famílias, movimentos. Foram líderes,
educadores, artesãos da fé e da justiça. E agora, nesta etapa diferente, talvez
sintam que o mundo gira sem perguntar, que as decisões são tomadas longe, que a
voz é menos ouvida.
Mas não se enganem: a vossa vida continua a ser fecunda. A
fecundidade não se mede pela atividade, mas pela capacidade de amar, de
inspirar, de sustentar com o olhar, com a oração, com a experiência.
Vocês são testemunhas de uma Igreja que passou por mudanças
profundas: do Concílio Vaticano II às novas formas de evangelização; das
missões rurais às redes digitais; das comunidades de base aos desafios da
secularização.
E também viveram as mudanças sociais: a passagem das
ditaduras às democracias, a luta pelos direitos humanos, o avanço da ciência, a
transformação das famílias, a dor das guerras e a esperança da paz. Viram como
a fé se encarnou em contextos diversos, como a solidariedade resistiu à
indiferença, como o Evangelho continuou a ser boa notícia para os pobres.
Talvez agora outros os levem «para onde não querem»: para
uma residência, para uma rotina que não escolheram, para depender dos cuidados
que antes ofereciam. Mas mesmo aí, Jesus diz-vos: «Segui-me.» Porque seguir
Jesus não é apenas caminhar, mas deixar-se amar. E vós, nesta etapa, sois
chamados a isso: a deixar-vos cuidar com dignidade, a partilhar a vossa
sabedoria, a abençoar com a vossa presença de «reformados» que vivem com
alegria.
Vocês não estão sozinhos. A comunidade precisa de vocês. As
novas gerações precisam ouvir as suas histórias, as suas lutas, as suas
esperanças. Precisam saber que a fé não é uma moda, mas uma experiência
profunda que atravessa décadas. Que o compromisso social não é ideologia, mas o
Evangelho encarnado. Que o amor não se aposenta.
Obrigado pela vossa vida. Obrigado pela vossa dedicação
silenciosa, pelos vossos anos de missão, pelas vossas noites de oração, pelas
vossas lutas e esperanças. Obrigado por continuarem a ser luz, mesmo que o
mundo nem sempre a veja. A Igreja precisa de vocês. A sociedade precisa de
vocês. E Deus olha para vocês com ternura infinita.
Em comunhão com
aqueles que continuam a ser raiz, testemunho e bênção,
Padre José Miguel Córdova Alcázar, mccj, em Comboni.org
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