Carta a mim...

Meu caro eu,
antes de mais, respira. Já é um bom começo — e, convenhamos, já é mais do que fazes quando andas a correr atrás de tudo e de todos.

Não te culpes pelo que já não tens. A vida, tal como a gaveta das meias, tem o dom misterioso de fazer desaparecer coisas. Aceita. 

Responsabiliza-te, isso sim, pelo que ainda podes arrumar — ou conquistar.

Não desistas de ti. Se Deus não desistiu de ti (e olha que já teve motivos para coçar a cabeça), quem és tu para o fazer?

Não percas tempo com quem não faz nada para o ganhar. Tempo é dom, não desconto de supermercado.

Não te concentres no que perdeste. Pode ser que o “perdido” fosse, afinal, reciclagem espiritual. Às vezes, Deus tira só para abrir espaço na estante da alma.

Não aceites menos do que mereces. Nem café fraco, nem amores mornos.

Não fiques preso ao passado como se ele fosse um episódio da tua série favorita. Há temporadas novas a estrear!

Esquece quem te magoa. E, se custar, lembra-te que até Jesus perdoou os que O espetaram — e tu ainda só levaste uns comentários desagradáveis e uns silêncios incómodos.

Deixa ir quem te deixou. Se saiu da tua vida, talvez o guião da tua história não o incluísse no próximo capítulo.

Não chores por quem só te faz chorar. As lágrimas são preciosas, reserva-as para quando cortares cebolas.

Não ames o que poderias ser. Ama o que és — obra inacabada, mas divina em construção.

Lembra-te de quem nunca se esquece de ti (e aqui, spoiler: Deus está no topo da lista).

Sê uma boa pessoa. Mas mantém os olhos abertos — nem todos os cordeiros têm lã.

Não pedinches amor. O verdadeiro amor não se pede, reconhece-se.

Não esperes por quem já apanhou outro comboio. Há mais partidas — e o teu destino não é a estação errada.

Não permaneças onde te ferem. O amor não é ringue de boxe.

Não te encolhas só para caber na vida de alguém. Foste criado à imagem e semelhança de Deus, não para seres dobrado como roupa na gaveta de ninguém.

Não dês oportunidades infinitas a quem nem uma mostrou merecer. Mesmo o Pai do filho pródigo só teve dois filhos — não cinquenta tentativas.

Não aceites pouco. Tu és mais do que o mínimo denominador comum da existência.

Proíbe-te de te sabotares. O inimigo já tem trabalho suficiente, não precisa de estagiários.

Se já não traz alegria, já não faz sentido. Deus é Deus da vida, não da rotina sem alma.

Se já não vês razão para ficar, então talvez tenhas encontrado razão para ir — e isso é sabedoria, não fraqueza.

Não dês atenção aos que não suportam em ti o espelho dos próprios defeitos. Eles precisam de oração, não de palco.

Faz-te ouvir. A verdade engasgada dá azia espiritual.

Não construas fortuna — constrói memórias que valham a pena contar no Céu.

Por mais infeliz que tenhas sido, ainda estás a tempo de seres feliz… eternamente. Deus ainda não deu por terminado o capítulo.

Não invistas em prolongar os dias, investe em iluminá-los.
E começa já.
Imediatamente.

Com carinho e uma piscadela do Espírito Santo,

Tu mesmo

Presbítero António Martins, da diocese da Guarda, em Facebook

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