Todos os Santos: «Não se trata de celebrar os “méritos” de pessoas extraordinárias, mas de reconhecer a presença de Deus, o único Santo, em cada um de nós»
Hoje sinto-me incapaz de harmonizar o sentido que demos à Solenidade de Todos os Santos com o Evangelho.
Na oração de coleta da Eucaristia da solenidade fala-se dos «méritos de todos os santos»:
«Deus todo-poderoso e eterno, que nos concedeis a graça de honrar, numa única solenidade, os méritos de todos os vossos santos, dignai-Vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.»
No
domingo passado, o fariseu, que se sentia com direitos, não saiu justificado do
templo. Essa interpretação da santidade como superioridade moral não tem nada que
ver com o Evangelho.
Há já alguns anos que venho intitulando esta festa como
«todos os santos». Hoje acrescento «e pecadores» porque, sem esse acréscimo,
podemos interpretá-la mal. Ouvir o Papa Francisco dizer «sou um pecador»
ajudou-me muito a perceber esta nuance. O que o papa fez foi manifestar a sua
fina espiritualidade. Esta ideia já tinha sido desenvolvida por Lutero, sendo
criticado por isso.
Estamos a mudar a ideia que tínhamos de «santo». Para isso
contribuiu bastante o empenho da Igreja nas últimas décadas em declarar santos,
inclusive centenas deles. Toda inflação implica sempre uma desvalorização.
Também ajudaram a esta nova ideia de santo os métodos utilizados nos processos
de canonização, nem sempre convincentes. Santo não é o perfeito, mas o pecador
que reconhece a necessidade que tem de um Deus que o ama sem que ele o mereça.
Só quando nos sentimos pecadores é que estamos perto de Deus. E, pelo
contrário, só na medida em que um ser humano é santo é que se pode sentir
pecador. Que ninguém caia na tentação de aspirar à «santidade». Aspirem apenas
a ser cada dia mais humanos.
Não devemos pensar nos «santos» canonizados, mas em todas as
pessoas que descobriram a marca do divino em si mesmas, ainda que não tenham
pensado na santidade. Não se trata de celebrar os «méritos» de pessoas
extraordinárias, mas de reconhecer a presença de Deus, o único Santo, em cada
um de nós.
O único mérito é sempre de Deus. Em todos os tempos
existiram e continuam a existir pessoas que, descobrindo o seu ser autêntico,
foram capazes de se doar aos outros e, assim, tornar o mundo mais humano.
Neste mundo também há lugar para o otimismo, porque a imensa
maioria das pessoas são boas, tentam por todos os meios fazer os
outros felizes. Isso não significa que não tenham falhas. Uma das atitudes que
mais nos humaniza é precisamente aceitar as limitações em nós mesmos. Às vezes,
esse reconhecimento torna-se uma tortura, mas deve ser uma libertação. Jesus
não exigiu perfeição aos seus seguidores, apenas lhes pediu que descobrissem o
amor gratuito de Deus neles.
Nesta festa celebramos a «bondade», onde quer que ela se
encontre. É uma festa de otimismo, porque, apesar dos noticiários, há muito bem
no mundo, se soubermos descobri-lo. É verdade que um a tocar tambor faz mais
barulho do que mil em silêncio. Por isso, o barulho que o mal faz oprimem-nos e
não nos resta espaço para descobrir o bem.
Quando colocamos a santidade no extraordinário, saímos de
todo o quadro de referência evangélico. Se acreditamos que santo é aquele que
faz o que ninguém é capaz de fazer, ou deixa de fazer o que todos fazemos, já
caímos na armadilha do falso eu. Todos somos santos, embora a grande maioria
ainda não tenha descoberto isso. Somos santos pelo que Deus é para nós, não
pelo que somos para Deus. A crença de que a santidade consiste em desenvolver
as virtudes não nasce do Evangelho.
Fray Marcos, em Fé Adulta
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