A Festa do Señor de los Milagros (Senhor dos Milagres) é a
principal celebração religiosa do Peru. É comemorada no mês de Outubro,
especialmente na capital, Lima. As procissões do Cristo morado (Cristo
púrpura) reúnem milhares de fiéis que usam capas ou peças de roupa roxas.
Texto: Fernando Félix, jornalista, em revista Além-Mar
A veneração de uma pintura de Jesus Cristo crucificado,
chamado Señor de los Milagros, é uma das tradições religiosas mais importantes
e representativas do Peru, país da América do Sul. Milhares de devotos, idos de
várias regiões do país, reúnem-se todos os anos em Lima, numa experiência
individual e comunitária que combina fé, História e cultura, e se tornou um
símbolo representativo da peruanidade, pois é uma celebração nacional que une
pessoas de todos os estratos sociais e regiões, através da piedade.
Breve história da festa
A veneração da imagem do Senhor dos Milagres remonta a 1650,
nos tempos em que o território era colónia de Espanha. Lima tinha uma população
de 35 mil habitantes, número que aumentava com a chegada de milhares de pessoas
atraídas pela prosperidade e riqueza. Ao mesmo tempo, Espanha fazia chegar a
Lima africanos escravizados na África Ocidental, classificados por casta: congos,
mandingas, mondongos, moçambiques, terras novas, minas e angolas.
Os angolanos eram o maior grupo entre os escravizados e foram
levados para o bairro de Pachacamilla, em 1651, onde se estabeleceram e se organizaram.
Entre as cabanas ergueram também salas com imagens de santos, onde faziam as
suas orações. Esses actos lembravam-lhes a sua liberdade e eles rezavam e cantavam
na sua língua materna. Um grupo organizou uma irmandade no bairro.
Numa das paredes de adobe, um angolano chamado Pedro Dalcón
ou «Benito» – segundo Raúl Porras Barrenechea (1897-1960), distinto advogado,
professor, historiador, escritor, diplomata e político peruano –, pintou a
imagem de Jesus na Cruz, em 1651. A obra era simples, mas estava carregada de
profunda espiritualidade, pois Cristo foi pintado com cores púrpura. Os
escravizados e habitantes da região começaram a reunir-se para rezar diante
daquele Cristo com quem se identificavam. Mais tarde, em 1671, foram acrescentadas
as imagens de Deus Pai, da Mãe de Jesus, de Maria Madalena e do Espírito Santo,
encomendadas ao pintor José de la Parra.
A primeira grande prova da força desta devoção aconteceu em
13 de Novembro de 1655, quando um violento terramoto atingiu Lima. Grande parte
da cidade ruiu, incluindo igrejas e casas de pedra, mas a frágil parede de
adobe onde estava pintada a imagem de Cristo permaneceu intacta. O fenómeno foi
considerado um milagre e a notícia espalhou-se, levando cada vez mais fiéis a
venerar o Cristo de Pachacamilla. Reuniam-se nas noites das sextas-feiras,
levavam flores, perfumavam o ambiente e cantavam orações.
Em 1671, por ordem do vice-rei, foi construída uma ermida e
o arcebispo nomeou quatro mordomos para honrarem o culto religioso, sendo o
mais destacado Sebastián de Antuñano.
Em 20 de Outubro de 1687, outro forte terramoto seguido de
maremoto devastou Lima e o porto de Callao. Mais uma vez, o edifício onde se
encontrava a pintura ficou gravemente danificado, mas a parede com o Cristo
Crucificado resistiu incólume. Então, Sebastián de Antuñano mandou fazer uma
cópia em tela do Cristo pintado na parede e, pela primeira vez, a imagem saiu
em procissão para percorrer as ruas da cidade, como expressão de agradecimento
e súplica pela protecção divina.
Em 28 de Outubro de 1746, quando Lima sofreu um dos
terremotos mais fortes da sua história, a população levou a réplica da imagem
do Senhor dos Milagres às ruas e becos da cidade. Nasceu, assim, a tradição que
viria a transformar-se uma das maiores procissões católicas do mundo. E é essa
mesma imagem que tem saído em procissão até aos dias de hoje.
A procissão multitudinária
São seis as saídas da imagem do Senhor dos Milagres, nos dias
4, 18, 19, 26 e 28 de Outubro e no primeiro de Novembro.
Curiosidade: A elevação mundial do andor
O Arcebispado de Lima informou que no sábado, 4 de outubro, dia da primeira saída do Senhor dos Milagres, ocorrerá um evento único: 52 irmandades do mundo e do Peru unir-se-ão no que chamaram de “elevação mundial” do andor da imagem sagrada.
Isso acontecerá às 12h em Lima, quando o cardeal Castillo tocará o sino. Esse será o sinal para que cada irmandade no mundo levante o andor do Senhor dos Milagres na sua jurisdição.
O andor de prata do Senhor dos Milagres sai do Santuário e
Mosteiro de Nazarenas (edificado em 1771 no lugar da ermida) e volta a ele. É carregado
por 32 membros da Irmandade dos Portadores do Senhor e tem um suporte de
madeira de carvalho. Só em prata o seu peso é de 450 quilos. Os carregadores
obedecem ao capataz-geral e a um subcapataz e são organizados em tripulações,
cada uma com o seu chefe. Há também uma irmandade de queimadoras de incenso; e outra
de cantoras, que entoam hinos e cânticos de louvor e penitência sem
acompanhamento musical. Um planificador dá a ordem de parar e continuar a
marcha da procissão. Todas estas pessoas usam capa e túnica de roxo e um cordão
branco.
Para os devotos do Senhor dos Milagres, o hábito roxo é
identificação com a dor e o amor de Cristo, bem como gratidão pelos milagres
recebidos. Ao usá-lo, as pessoas expressam arrependimento, desejo de mudança e
um processo de conversão espiritual.
Elementos da Festa do Senhor dos Milagres
É prática comum dos devotos do Senhor dos Milagres usarem
vestes roxas durante todo o mês de Outubro. É um modo de Lhe retribuir os
pedidos ou promessas.
Numerosos fiéis vão em romaria à Igreja das Nazarenas, fazem
as suas orações diante da imagem original e participam na Eucaristia. É um
momento de encontro espiritual.
Um dos elementos mais emblemáticos da celebração do Senhor
dos Milagres é a gastronomia afro-peruana. Durante as cinco semanas da
festividade há comidas e bebidas típicas: a sobremesa tradicional mazamorra
roxa, feita de milho roxo cozido com frutas e especiarias, que simboliza o
sangue de Cristo; a chicha roxa: bebida feita com milho roxo, abacaxi, maçã,
canela e cravo; os picarones: anéis doces e fritos feitos de massa de
batata-doce e abóbora, servidos com mel; e os nougat: é um torrão muito
macio e arenoso, com mel, confeitos coloridos, frutas desidratadas e sementes
de anis e gergelim.
A música crioula, expressão artística das emoções mais
profundas do povo peruano, também contribui para a devoção ao Senhor dos
Milagres. Canções como Himno al Señor de los Milagros, La Ofrenda
e Milagro de Octubre são hinos que acompanham procissões e cerimónias
religiosas e resumem o fervor e a gratidão dos fiéis.
Um exemplo significativo de como esta devoção se reflecte na
vida quotidiana é o clube de futebol Aliança Lima, ligado à comunidade
afro-peruana. Durante o mês de Outubro, muda a cor do seu equipamento para
roxo.
Patrono de todos os peruanos
Em 2005, o Ministério da Cultura do Peru declarou a
festividade do Senhor dos Milagres Património Cultural da Nação.
No mesmo ano, o Vaticano, em coordenação com o Arcebispado
de Lima, designou o Senhor dos Milagres Padroeiro dos Residentes e Imigrantes
Peruanos. De facto, os peruanos que emigraram celebram este culto também
durante o mês de Outubro, nas cidades ao redor do mundo onde se fixaram, nas
suas vertentes religiosa, cultural e gastronómica.
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