Este texto «O barulho das conversas vazias» é uma aula magistral acerca da boa comunicação interpessoal de que precisamos hoje
Há um fenómeno inquietante que atravessa a vida moderna: falamos
de mais sobre o que é imediato, trivial e repetitivo. É o ruído da convivência
sem presença, da comunicação sem comunhão.
Quando a conversa se ocupa apenas do quotidiano, ela converte-se
em barulho. E o barulho é o contrário do sentido. Ele é a palavra que perdeu o
peso, a voz que se tornou leve demais para tocar o real.
O excesso de conversas banais não aproxima as pessoas, mas dispersa-as
numa superfície de sons e risos programados. A linguagem, instrumento de
revelação, torna-se uma cortina.
Nietzsche, com a sua lucidez cortante, dizia que “os grandes
pensamentos vêm do silêncio e da solidão”. O excesso de palavras é, portanto, o
sintoma de uma época que desaprendeu de pensar.
Quando a pessoa fala sem pausa é porque teme o vazio que a
pausa revelaria. O falatório é um disfarce do medo, medo do silêncio, medo da introspeção,
medo de descobrir que, por trás das palavras, talvez não haja nada.
Heidegger chamou isso de Gerede, o “falatório” como forma de
decadência do ser. Não se trata apenas de falar muito, mas de falar sem raiz. A
palavra deixa de emergir da experiência e passa a circular como mercadoria,
rápida, leve, substituível. O mundo torna-se uma feira de sons, onde cada um
busca atenção e ninguém busca verdade. A conversa é o palco onde se representa
o eu social, não o espaço onde se desvela o ser.
Na sua aguda perceção do humano, Simone Weil afirmou que “a
atenção é a forma mais rara e pura da generosidade”. O problema é que o barulho
das conversas sobre o nada destrói justamente essa capacidade de atenção.
Fala-se para ser ouvido, não para ouvir. A escuta tornou-se uma arte perdida. A
palavra deixou de ser instrumento de encontro e converteu-se em arma de
afirmação.
No fundo, as pessoas contemporâneas falam como quem se
defende. O ruído serve como couraça contra o pensamento. Conversar sobre o quotidiano,
o tempo, as compras, o trânsito, as notícias, é uma forma de evitar o abismo do
real. É como se o mundo moderno tivesse transformado a banalidade em refúgio.
Falar do nada é mais fácil do que encarar o tudo.
Hannah Arendt dizia que “o pensar começa onde a trivialidade
termina”. E talvez seja isso que mais nos falte, a coragem de atravessar o
trivial para alcançar o essencial. As conversas incessantes, multiplicadas
pelas redes sociais e pelos espaços de convivência imediata, são o sintoma de
uma sociedade saturada de expressão, mas carente de significado. O mundo fala
demais porque não suporta mais o silêncio que precede o sentido.
Byung-Chul Han, na sua análise sobre a “sociedade do
cansaço”, observa que vivemos uma era de transparência e hipercomunicação, na
qual o excesso de informação gera uma pobreza de reflexão. Quanto mais se fala,
menos se pensa. A avalanche de palavras não ilumina, apenas encobre. O barulho disfarça-se
de diálogo, mas é apenas um eco sem alma.
O discurso quotidiano, quando desprovido de interioridade,
torna-se um ruído que adoece a alma. Conversar não é apenas emitir sons, é
criar presença. É uma ação que deveria nascer do silêncio interior. Sem essa
origem, toda a palavra é oca. É preciso compreender que o silêncio não é o
contrário da fala, mas o seu alicerce. É nele que a palavra ganha peso, como o
ouro que se forma sob pressão e tempo.
Mas a sociedade contemporânea substituiu o silêncio pelo
comentário. Vive-se comentando tudo, as notícias, os gestos, as imagens, os
outros. O comentário é a forma mais leve do pensamento, e por isso mesmo a mais
estéril. O homem que comenta já não observa, apenas reage. A sua conversa não
brota da contemplação, mas da pressa. O quotidiano, tornado absoluto, devora o
mistério.
Em tempos de ruído, cultivar o silêncio é um ato de
resistência espiritual. Aprender a falar menos é reaprender a ouvir o mundo. Só
quem escuta de verdade pode dizer algo que valha ser dito. E só quem faz do
silêncio a sua morada pode fazer da fala um templo.
Assim, talvez devamos reaprender a conversar. Não para
preencher o vazio, mas para dar-lhe forma. Não para fugir do silêncio, mas para
fazê-lo ressoar. Toda a conversa verdadeira é uma ponte entre dois silêncios, o
que antecede e o que sucede a palavra. Quando o verbo nasce desse intervalo,
ele já não é barulho, mas revelação.
Falar, então, torna-se um gesto sagrado. E o quotidiano,
quando atravessado pela consciência, deixa de ser banal para tornar-se
simbólico. O mundo reencontra a sua espessura, a linguagem volta a ser morada
do ser, e a conversa, em vez de ruído, volta a ser música.
Oliver Harden, escritor brasileio, em Facebook
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